30/09/2011
Ano 14 - Número 755


 

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ARQUIVO
FLÁVIO BARRETO

 

Flávio Goulart Barreto



MORTES MISTERIOSAS, MAS NEM TANTO


 

Flávio Goulart Barreto, colunista - CooJornal

Está morta - disse o escrivão, depois de se debruçar sobre a vítima, recolhendo um saco plástico que colocara sobre sua boca e o nariz como teste – Não está respirando e com estes dois “balaços” que levou no peito, seria impossível sobreviver – vaticinou.

Ao casal que estava de pé ao lado da mulher estirada sobre a vegetação rasteira, entregou um formulário preenchido e assinado, dizendo:- estou no comando porque o Delegado viajou para capital, não tenho como removê-la com este “fusca” e se vocês que a encontraram em sua casa puderem ajudar-me eu ficarei grato. Vocês a levarão para Cerro Molhado e pedem em meu nome ao legista Dr. Laerte para assinar o atestado de óbito e se por acaso o Doutor não ac

eitar, deixem o corpo lá mesmo no IML que depois eu passo para resolver. Qualquer coisa diferente disto favor avisar.

O casal meio a contragosto, concordou e logo após a partida do escrivão e vários outros curiosos que estavam por ali forraram o banco traseiro do Passat com alguns jornais, estenderam ali a mulher, que deveria ter uns trinta anos. Dirigindo pela estradinha de chão batido, entraram na rodovia federal e se dirigiram para a cidade de Cerro Molhado, município vizinho e sede da comarca. A vítima fora encontrada na pequena propriedade que possuíam ali no pequeno município de Simão, onde nem cemitério havia. Os mortos de Simão, pequena cidade com pouco mais de vinte mil habitantes eram enterrados em Cerro Molhado, esta última sim, uma cidade com quase duzentos mil habitantes.

No trevo da rodovia federal que bifurca para entrar na sede de Simão disse a mulher que com seu companheiro estavam levando a vítima para as providência solicitadas:- Querido, estou muito desconfortável com esta situação, acho melhor você me deixar em casa e fazer sozinho este trabalho, desculpe-me mas não consigo, estou assustada.  O rapaz concordou, parou o carro a poucos metros da residência deles, entrou uns minutos com a mulher e depois saiu e seguiu para Cerro Molhado para entregar a “encomenda”.

Acontece que alguns dias antes desta ocorrência da moça, nosso escrivão tinha recebido na Delegacia uma informação incomum naquela cidade, era a primeira vez que acontecia. Tinha sido assassinado o “chefão” local do tráfico de drogas. “Chefões” ou sub-chefes de tráfico hoje são comuns em qualquer cidade de porte médio, pois ninguém mais está livre deste “moderno ramo de negócios". De qualquer forma, mesmo sabendo boa parte da população de Simão que havia o tal comércio na cidade, não se imaginava que já haviam “chefões” sujeitos a assassinatos cinematográficos. Esta o escrivão não quis resolver, passou ao Delegado que se dispôs a cuidar do caso, com as investigações de praxe.

O Delegado Agildo, na polícia há vinte anos, depois de dar tratos a mioleira e diante de um novo acontecimento, resolveu chamar em seu gabinete o Dr. André, experiente criminalista que sabia muitos segredos da cidade embora nem sempre os externasse.

- Dr. André, já estamos há muitos dias numa investigação sobre o assassinato do Luizão Pó Branco, agora mataram aquela moça e não tenho a menor pista. Ontem fui informado que apareceu morto num hotel em São Paulo, um tal de Mefisto, que tem casa de praia aqui em Simão. O pessoal da Delegacia de Homicídios de São Paulo ligou-me pedindo ajuda, porque acham que tem alguma ligação com a morte do Luizão. O senhor sabe alguma coisa sobre tudo isto?

- Delegado, disse o calejado advogado:- sei dos dois crimes aqui em Simão e que você está pedindo as informações como amigo e não oficialmente, mas de fato nada sei que possa ajudá-lo, vou ficar atento, se algo houver que possa lhe dizer, sem quebrar sigilo profissional repassarei. – Obrigado, aguardarei, respondeu agradecido o Delegado.

Não tendo mais a quem apelar, decorridos vários meses dos três crimes importantes e misteriosos, um questionado pela Policia de São Paulo sobre as investigações relativas à morte de Mefisto, o Delegado resolveu conversar com um preso que embora já tivesse tido alguns pequenos incidentes com drogas, estava detido por falcatruas com cheques.

Chegando à cela do detento, geralmente com a porta aberta até porque não era perigoso, aguardava andamento de seu processo e ajudava em alguns serviços burocráticos na delegacia, estranhou que estivesse assistindo a uma televisão nova.

Parecia estar havendo algum privilégio inaceitável, pois ao que soubesse o preso era pobre e não teria “grana” para este conforto. Para não prejudicar, entretanto, sua investigação, preferiu não tocar imediato neste assunto e perguntou-lhe:- Rapaz, se você quer manter algumas regalias que vem tendo, poderia ajudar-me dizendo-me o que você sabe sobre a morte do Luizão Pó Branco? E daquela moça que apareceu morta aqui em Simão?

- Doutor, o senhor deve estar me estranhando, meu negócio é jogada de cheque, esse negócio de tráfico não é comigo não, no máximo eu andei “fumando uns” essa gente que o senhor está falando é da pesada. Não sei nada não.

Agildo tinha experiência, sabia que naquele momento não arrancaria nada, mas ameaçou, vou tirar hoje mesmo sua televisão, vou querer saber como veio parar aqui e quem autoriza estas suas mordomias. O preso manteve-se silente e o Delegado saiu irritado.

Na manhã seguinte, de forma meio tímida, o escrivão entrou na sala do Delegado e começou com uma conversa de - “deixa prá lá” Doutor, o Cilinho é gente boa, não tira a televisão dele não, ele até ajuda a gente aqui, sabe redigir bem, mexe bem com o computador, vai fazer falta, estamos com pouco pessoal para muito trabalho.  O Delegado assentiu em manter as benesses de Cilinho, mas ficou com a “pulga atrás da orelha”. Começava a desconfiar do seu escrivão.

Um dia antes do início de um feriadão muito comum no nosso país, Dr. Agildo resolveu dar uma geral nos processos da Delegacia dos últimos doze meses e convocou uma das ajudantes para acompanhá-lo naquela chata, mas necessária tarefa e para surpresa sua o escrivão que ouvia o “convite”, imediato colocou-se a disposição para colaborar, alegando que sua esposa viajaria, ele ficaria só em casa e não tinha nada para fazer.

Na tarde daquele mesmo dia, quando saiu da Delegacia e passou perto do carro do escrivão estacionado ao lado da repartição, dois objetos no banco de trás chamaram a atenção do Delegado, uma pasta de processos e uma filmadora, que ele não sabia que aquele funcionário possuía. O processo podia ser normal, o escrivão gostava de levar alguns para examinar em casa, mas a máquina era surpresa. Os salários eram baixos e não sabia de rendas extras do “escriba”.

Resolveu esquecer, mas naquela noite recebeu um telefonema do Dr. André.

- Dr. Agildo, soube que o senhor estaria trabalhando em casa e resolvi lhe repassar uma informação que talvez o ajude nas investigações. Ligou-me, ontem à noite, um colega advogado que não atua na área do crime e perguntou-me quais as implicações, que crime haveria em sabendo, não denunciar a sobrevivência de alguém que todos tinham como morto, mas que estava vivo. Disse eu ao colega que a resposta não era tão simples, dependeria de uma série de aspectos e assim por diante, mas tem alguma coisa acontecendo que talvez o senhor possa entender melhor que eu. 

O Delegado agradeceu, colocou a "cuca" para trabalhar, comentou com o escrivão o telefonema, mas não obteve comentários e nem chegou a conclusão alguma.

Durante os três dias do feriadão, Quinta, Sexta e Sábado, observou o Delegado que o escrivão parecia nervoso e também estava nervoso o preso Cilinho. Algo estava errado e o Delegado que não era burro resolveu dispensar todos os auxiliares no domingo alegando que somente ficariam na Delegacia ele e dois policiais militares de plantão. Não queria ninguém ali, necessitava meditar.

Domingo bem cedo, o Delegado chamou um dos policiais de plantão que estava fazendo um cursinho de informática e pediu-lhe que rastreasse no computador, por tipo de processo, aqueles relativos a estelionatos e homicídios e telefonou a secretária para que viesse ajudá-lo a separar todas as pastas destes crimes. Eram mais de oitenta nos últimos doze meses, mas ali nada encontrou de anormal.

Pediu então ao policial para listar todos os Boletins de ocorrência por número e ordem de data e deu-se a trabalheira de verificar se todos estavam arquivados, tarefa que somente acabaram às duas horas da madrugada já na segunda-feira. Havia falta de um processo e Dr. Agildo acreditou que ali estaria parte da resposta para suas perguntas.

Na Segunda feira já pela manhã, chamou a sua sala o escrivão e foi dizendo: - Sempre confiei em você e continuarei confiando, mas vou fazer-lhe uma pergunta e quero uma resposta imediata e verdadeira.  Assustado o escrivão falou: - Sim Doutor, o que houve?

Onde está o boletim de ocorrência do processo número 222 que não se encontra no local onde deveria estar? Vi no seu carro há alguns dias um processo no banco traseiro e tenho certeza que você não o devolveu. Estou tratando de agilizar a liberdade do Cilinho, liberei ontem ele por três dias para visitar a mãe doente e ele sabe coisas que está me contando, blefou o delegado. De fato havia liberado Cilinho por três dias, acompanhado de um policial, mas Cilinho não tinha falado coisa alguma.

- Doutor, aquele processo é um assunto velho daquela mulher que morreu num fim de semana que o senhor não estava aqui na cidade e até já deve estar enterrada, mas acho que o processo está por ai arquivado, vou dar uma olhada.

- Está bem, verifique e responda-me rápido.  – Saindo da sala do Delegado, o escrivão foi à cela de Cilinho e obteve do “coleguinha” que ocupava a mesma cela, a informação de que o Cilinho tinha tido uma longa conversa com o Delegado no Domingo e que fora liberado por uns dias.  Claro que "Dimas" estava falando sob orientação do Delegado.

Dois dias e duas noites depois sem dormir, angustiado, o escrivão entra na sala do Delegado e tentando aparentar tranquilidade entrega-lhe o processo que estava faltando, justificou que levara para casa porque o caso lhe parecia estranho, pois depois do ocorrido ninguém nunca buscara qualquer informação sobre o assunto. Com esta novidade, nosso Sherlock Agildo, começa a desenhar um quadro e liga para Dr. André.

- Dr. André, por favor, eu necessito saber qual o colega advogado que ligou para o senhor antes do feriadão perguntando sobre a "não informação de morte não ocorrida de fato" e tentarei usar o que me disser sem lhe criar embaraços. – Tudo bem Delegado, veja como trata o assunto, foi o Dr. Aristeu um amigo meu que atua em direito comercial.

Agildo ligou para Aristeu:- Dr. Aristeu, não temos o prazer de conhecer-nos, mas como Delegado, com a difícil missão de esclarecer crimes, acredito que o senhor tem uma informação que pode ajudar-me. Contou-me seu amigo Dr. André, que me deu seu telefone, que alguém certa feita o consultou sobre a existência de uma morte anunciada mas não ocorrida e gostaria de saber se pode dizer-me quem o consultou.

- Delegado, para falar-lhe a verdade, esta consulta já me foi feita há meses atrás e nem sei direito quem foi, a pessoa não quis identificar-se e como nunca contratou-me de fato, nem seria falta de ética dizer o que sei, apenas lembro que meu identificador de chamadas gravou um telefone e este devo ter, mas aguarde-me um pouco... Sim tenho aqui, é o número 888.1111 e pelo prefixo é ai da sua cidade.

Não seria tão fácil, mas nada que um bom investigador não conseguisse descobrir, pensou Dr. Agildo e começou a agir. Discou o número que tocou num posto de gasolina. Perguntou ao dono quem teria utilizado seu aparelho no dia x e hora z, para ligar ao advogado Aristeu. Alertou que impedir, inibir ou atrapalhar a ação da polícia é crime.

O dono do posto prometeu ajudar e dentro de duas horas ligou dizendo que Ageu um vizinho do posto utilizava às vezes o telefone e que antes pacato, parecia agora meio preocupado e tinha pedido o telefone para consultar um advogado naquela data. 

Chamado à Delegacia Ageu e inquirido sobre um telefonema para o Dr.Aristeu abriu logo tudo que sabia. Disse ter visto viva a moça que havia sido dada como morta na cidade. Disse que a tinha encontrado, na semana seguinte à presumida morte, caminhando em um supermercado em Cerro Molhado.

- Fui ao encontro dela e perguntei se não era aquela moça que disseram estar morta lá em Simão e ela tentou correr sem falar comigo. Corri atrás segurei pelo braço e disse que a levaria já ali para a policia. Ela pediu calma e me convidou para ir para um canto mais retirado, tirou da bolsa uma boa grana e ameaçou, você escolhe: fica com este dinheiro, some e nunca mais fala nisto ou morre em poucos dias. Daí para cá, primeiro fiquei quieto, mas como acho que pode ter coisa maior, liguei para um advogado que me deram o nome mas ele não sabia orientar, disse que depois ligaria e nunca mais soube dele. É o que eu sei seu delegado estou bem preocupado, quero ajudar, mas tenho medo.

Agildo, imediato, chama o escrivão a sua sala e mentindo diz que sabe que a "falecida" do processo 222 está viva e presa, mas quer saber porque ele participou disto tudo, mandando-a como morta para outra cidade num carro de terceiros que pouco conhece.

O escrivão começou negando, mas depois de uma pressão abriu o jogo: - Doutor, aquela moça na verdade não morreu, sua morte foi simulada, ela é irmã do Luizão Pó Branco e todos os bens dele estavam no nome dela. Ela era amante do Mefisto que foi quem mandou matar o Luizão para depois poder arrancar os bens da "falecida" porque dizia ter o que chamam de união estável. Acontece que para pegar os bens ela tinha que morrer e não existem outros herdeiros.  A moça, no entanto, já estava desconfiada de toda a trama e vendeu tudo que pode comprando dólares e ouro, mas andava escondida de Mefisto que é outro camarada perigoso.

Continuou o escrivão:- Ela arrumou um namorado que estudou comigo em Cerro Molhado que a aconselhou a mudar de nome, sumir ou dar o fim em Mefisco. Ela decidiu simular sua própria morte para que Mefisto mostrasse suas verdadeiras intenções, o que de fato aconteceu depois. A minha participação foi a pedido do meu amigo, "encontrar o corpo" afirmar que estava morta e mandar tirar da cidade de algum modo rápido porque do resto ele se encarregaria.

A "falecida" esperta no caminho para Cerro Molhado tão logo se viu só enquanto o casal que a levara deu uma pequena parada em casa, fugiu do carro ficou escondida até que o motorista se afastasse e deu um jeito de voltar para sua cidade. Imaginei isto, porque no dia seguinte o cara que tinha levado ela no carro ligou para a Delegacia e se disse muito preocupado porque o cadáver havia sumido. Mandei que ele ficasse quieto que ali existiam mistérios e bandidos perigosos.

- E o que você ganhou com tudo isto seu verme? Inquiriu furioso o delegado. – Doutor eu ganhei vinte mil, mas não matei ninguém, não roubei e recebi para esconder um crime que na verdade nem houve. – E quem matou Mefisto? Perguntou o delegado.

Doutor isto eu não sei, mas acho que quem mandou matar foi a falecida, mas este crime nem é investigação nossa é lá de São Paulo. O cara nem tem domicilio aqui em Simão. A tal da moça dizem que está muito rica na capital e usando identidade falsa. Fico surpreso de o senhor dizer que ela está presa.

– E o patife do teu "amigo" como posso falar com ele? - Doutor isto é fácil, ele até conhece o senhor. Contou-me que há uns vinte anos atrás vocês dois passaram um carnaval juntos em Salvador.

 – Sei, é o filho da puta do Oséias, aquele bissexual safado.

– E o Cilinho, Delegado, o que é que sabe desta história toda? O senhor pode me dizer o que falou com ele?

– Nada, nada rapaz, o Cilinho é inteligente, mas é um maconheiro irresponsável. De todo modo meu caro escrivão você é que vai me contar o que o Cilinho ainda não contou. Já estamos em dezembro, vamos deixar tudo isto para ver ano que vem.  O Delegado preferia não conversar sobre nada que envolvesse Oséias.

Dois anos mais tarde comentava o Dr. André com um colega num "papo" informal sobre tudo aquilo. Contava que o Delegado havia sido promovido para uma cidade maior e que havia comprado uma casa muito boa. Que o escrivão tinha sido transferido também, mas ninguém sabe para onde e que o tal de Oséias havia sido assaltado e morto, aparentemente num crime de latrocínio no carnaval deste último ano em Salvador.

- E os tais crimes do Luizão e do Mefisto foram desvendados? E no falso crime da moça, alguém foi punido? Perguntou o colega ao Dr. André. – Não, meu caro amigo, estas coisas você sabe como são demoradas e às vezes nunca esclarecidas. Eu até sei ou acho que sei tudo que aconteceu, mas prefiro não comentar. Melhor é deixar o tempo desvendar ou apagar para sempre. Quem sabe um dia eu escrevo um roteiro de filme, com conclusões e punições, comentou sorrindo o experiente advogado.   

 

(30 de setembro/2011)
CooJornal no 755


Flávio Goulart Barreto - Economista e advogado. Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual faz parte. http://carrossellaguna.blogspot.com.
flavio@martinsbarreto.com.br

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