07/10/2011
Ano 14 - Número 756


 

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ARQUIVO
FLÁVIO BARRETO

 

Flávio Goulart Barreto



Notívagos e seus mistérios

 

Flávio Goulart Barreto, colunista - CooJornal

Esbaforidos entramos os quatro hospital a dentro tentando transportar o "morto". É, foi assim que dissemos à primeira enfermeira que encontramos no único hospital de uma pequena cidade de interior aí pelas onze horas da noite de um sábado: Moça achamos este homem que parece morto, mas se não estiver quem sabe a senhora o salva

A velha enfermeira foi totalmente antipática, mas talvez este fosse o único modo que encontrava para administrar o dito nosocômio, com poucos recursos, muita demanda e muita incompetência por falta de mão de obra especializada. De qualquer forma, não nos  preocupava o perfil de quem nos atendia, apenas tentávamos socorrer um cidadão encontrado caído num terreno baldio com rosto e peito cobertos de sangue.

Com aquela simpatia que lhe era peculiar foi logo dizendo: se está morto, o lugar dele é no necrotério, se está vivo e puder ser salvo vamos tentar, mas vocês que já devem ter seus doze ou treze anos sabem que não temos médicos permanentes aqui no hospital.  Rápido, meu amigo Zélio prontificou-se: A senhora quer que eu vá chamar aquele médico mais moço? Eu sei onde ele vai nos sábados à noite. Ela dispensou a sugestão e disse que resolveria.

Um outro ajudante de enfermagem chega e examina os sinais vitais do morto e vai logo dizendo que ele apenas deve ter levado uma paulada na cabeça porque respira bem e está com a pressão nos níveis normais. Parece até que está fingindo ou bêbado, disse o inculto mas experiente auxiliar.

Recolheram o ferido e levaram para um quarto, não nos tendo sido permitido acompanhar, ante a alegação de que crianças não entram em locais de tratamento especial de acidentados. Nos conformamos e fomos para casa até porque a estas alturas, nossos pais já deveriam estar preocupados pois já passava de meia noite, já era domingo de madrugada.

Combinamos ainda no caminho para casa e retornamos ao hospital no domingo depois da missa das nove para ver o que tinha acontecido e como estaria passando nosso protegido e ali uma surpresa. Já tinha recebido alta e nenhuma outra informação nos foi passada ante o pretexto de que não éramos parentes e todos com pouca idade. Insistimos mas nada mais nos foi dito.

Passaram-se meses sem novas informações e ninguém na cidade acreditava em nossa história inclusive nossos pais, pois a mãe de um dos meus amigos que conhecia uma enfermeira, foi ao hospital e lá disseram que não tinha sido atendido nenhum senhor acidentado naquela misteriosa noite de sábado. Esquecemos o assunto.

Uns quinze anos mais tarde numa visita a um bordel que existia num bairro mais afastado, Nelema uma das mais velhas mulheres de vida fácil que atuava no local, numa roda de bebidas, contou a mim e Nizinho que ali tínhamos ido juntos para nos divertir, uma interessante história.

Nelema vangloriava-se de sua capacidade de colocar ciúmes até nos figurões da pequena cidade e que certa feita há muitos anos um médico que era apaixonado por ela, encontrou-a nos braços de um marinheiro que a visitava a cada seis meses. Não se conteve e destruiu na cabeça do pobre coitado uma estatueta de pedra que ficava a um canto da sala de danças. 

E depois? Perguntamos curiosos. Olha, disse a velha prostituta, o tal médico pediu a dois amigos que jogassem o cara em qualquer barranco porque  ele melhoraria e voltaria para barco pois nada havia de grave. Contou ainda que um ano depois havia recebido uma carta do marinheiro dizendo que nunca mais voltaria à cidade porque poderosas pessoas o tinham levado do hospital para o barco devidamente medicado e avisado que se ali voltasse morreria. Nosso mistério acabara.    

 

(07 de outubro/2011)
CooJornal no 756


Flávio Goulart Barreto - Economista e advogado. Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual faz parte. http://carrossellaguna.blogspot.com.
flavio@martinsbarreto.com.br

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