28/11/2011
Ano 15 - Número 763


 

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"Amigo da Cultura"




ARQUIVO
FLÁVIO BARRETO

 

Flávio Goulart Barreto



JUSTINE


 

Flávio Goulart Barreto, colunista - CooJornal

Quando fui a Paris pela primeira em setembro de 1970, tomando um café numa rua em Montparnasse conheci Justine, uma ativista de esquerda, ainda uma menina, mas que tinha participado daquela verdadeira guerra ocorrida em 1968, com direito a barricadas e tudo o mais.

Não tão bonita, mas muito inteligente, sensual e atraente encantou-me logo no primeiro contato apesar das dificuldades de comunicação. Ela conhecia algumas palavras em português e eu algumas em francês. Foi o suficiente.

Ocorre que no campo político não concordávamos em absolutamente nada. Eu aos 23 anos, finalizando um curso de economia e com idéias à direta e ela aos 18 com total esquerdismo. Conversamos sobre Sartre seu ídolo, à época com 65 anos. Ela contava-me com verdadeira satisfação que Sartre havia em 1964 se recusado a receber o Nobel de Literatura porque repelia as distinções e as funções oficiais, enfim por todas aquelas razões que era conhecido o grande filósofo.

Superadas estas divergências políticas, absolutamente sem importância no caso concreto onde um tupiniquim se relaciona com uma parisiense, dos cinco dias que passei em Paris, pelo menos durante trinta horas estive com Justine e pude entender antes de ler, os pensamentos do mestre Jean. Com ela aprendi porque se falava tanto sobre a beleza ou sensualidade das mulheres francesas, das quais até então só tinha noticias nuns poucos filmes com Brigitte Bardot e Jeanne Moreau. Acordei do sonho, estava em Tubarão. Em dezembro de 1970 concluí a faculdade e parti para uma vida de responsabilidade profissional e familiar. A vida seguiu seu rumo.

No começo de junho de 2009 quando voltei a sonhar com Paris, a saudade me fez caminhar naquela mesma rua, procurando aquele mesmo café que lá continuava funcionando, com algumas pequenas reformas. Sentei e resolvi esperar pensando como estaria Justine, uma senhora gorda? Já teria morrido? Estaria presa? Cheguei a pensar que poderia ter morrido no Airbus A320 que tinha caído no Atlântico poucos dias antes, alias o assunto mais discutido por alguns brasileiros e muitos franceses naquele momento, naquele bar-café um pouco antes do anoitecer. Não a encontrei, cansei, desisti e resolvi voltar para o hotel.

No dia seguinte resolvi tentar assistir palestras que estavam se realizando em Paris, sobre as "Imagens do direito no pensamento de Michel Foucaut" e "Relação entre moral, ética e direito de Immanuel Kant" ou algo do gênero que eram objeto de noticias do Le Monde. Bingo. Acertei.

Numa sala da Universidade onde consegui entrar meio na conversa fiada, após convencer uma velha senhora que estava na portaria, eis que num estrado um pouco mais alto onde estava um microfone instalado um apresentador anuncia como palestrante, uma pós-doutorada, PHD e etc que abordaria "A indispensável e necessária reação da direita para evitar o caos" e surge uma elegante e bonita senhora dos seus quase sessenta anos, cujo nome era exatamente Justine.

Não me contive, quase saltei da cadeira, fui para um local vago que exista mais próximo da palestrante para vê-la bem de perto, mas infelizmente constatei com certeza não era aquela "minha" Justine. Apesar da grande semelhança, esta tinha cabelos brancos e embora bem conservada e maquiada, possuía já algumas rugas e agora era de direita. Não, não, por favor, esta não era Justine. Levantei e fui embora decepcionado, ou melhor, acordei daquele sonho.


(28 de novembro/2011)
CooJornal no 763


Flávio Goulart Barreto - Economista e advogado. Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual faz parte. http://carrossellaguna.blogspot.com.
flavio@martinsbarreto.com.br

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