
13/02/2010
Ano 13 -
Número 671 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
Estou apenas observando...
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Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do
Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus
mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São
Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares,
preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já
haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um
outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois
modelos produz felicidade?'
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não
foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom,
então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela,
'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de
inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de
garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho
aula de meditação!
Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas
emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me
preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo,
vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha,
não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da
espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em
Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma
preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual.
Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos
também eticamente virtuais...
A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da
imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se
apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a
publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é
o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este
tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!' O problema é que,
em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que
acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a
neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse
condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver
melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis:
amizades, autoestima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no
consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status
construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É
curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de
catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso
vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação
paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas
capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas
sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se
passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se
no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa,
com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas
fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico:
'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o
centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele
respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso
para ser feliz !"
(13 de fevereiro/2010)
CooJornal
no 671
Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais,
autor de "Cartas da Prisão (Agir), "A arte de semear estrelas (Rocco), "Gosto de Uva" (Garamond), "A menina e o
Elefante" (Mercuryo Jovem) e
"Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros
SP
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