06/08/2005
Número - 436




 

Frei Betto



SALVEMOS O PT!

 

PT não significa Partido do Trambique, da Trapaça ou da Tramóia. É o Partido dos Trabalhadores que, ao longo de 25 anos de existência, revelou possuir muitas virtudes e alguns vícios. Agora ele aparece, aos olhos de considerável parcela da opinião pública, um partido "igual aos outros" ou "farinha do mesmo saco".

O horror da Inquisição na Idade Média e os recentes casos de pedofilia não obscurecem a história da Igreja, banhada pelo sangue dos mártires e abraçada por tantas figuras exemplares, como Francisco de Assis, Bartolomeu de las Casas e madre Teresa de Calcutá.

O fato de alguns dirigentes do PT terem agido em contradição com a ética e os princípios do partido não significa que houve conivência do conjunto de sua direção e, muito menos, de sua militância, em geral gente pobre, desempregados, donas de casa, operários, pequenos agricultores, estudantes e profissionais liberais.

Excessos, traições e corrupções ocorrem, infelizmente, em todas as instituições. Até Jesus teve Judas em seu grupo.

O PT não merece ser levado na enxurrada do esgoto destampado pelo deputado Roberto Jefferson. Precisa ser preservado e depurado, como bem percebeu o presidente Lula ao apoiar as CPIs, demitir o ministro José Dirceu e intervir na direção do partido, agilizando a substituição de seus membros por ministros de alta competência e confiabilidade, como Tarso Genro (Educação), Ricardo Berzoini (Trabalho) e Humberto Costa (Saúde).

Nunca me filiei ao PT, mas participo de sua história, abonei-o junto às Comunidades Eclesiais de Base e aos movimentos populares. Como cidadão, constato que ele está visceralmente comprometido com o futuro do país. Se o PT naufragar junto com seus dirigentes alvos de suspeitas, em qual outro horizonte os pobres haverão de canalizar suas esperanças? O PT é muito maior do que seus dirigentes acusados de agir ilicitamente no tráfico de verbas de campanha.

Numa nação em que a parcela dos 10% mais ricos controla 42% da riqueza e, na outra ponta, os 10% mais pobres dividem entre si 1% da renda nacional, o PT tem sido a referência de mudanças no rumo da justiça social, malgrado o freio de mão representado pela atual política econômica do governo.

A hipótese de esgarçadura do PT, advogada por setores retrógrados da política brasileira, é uma ameaça à estabilidade democrática. Sem o PT, os movimentos populares perderão sua representação política. É verdade que poderiam delegá-la a outros partidos progressistas, mas nenhum deles tem suficiente capilaridade no país, nem suscita o entusiasmo confiante que o PT goza Brasil afora.

Sem o PT no cenário político brasileiro, o movimento popular ficará órfão, sem canal de expressão, o que poderá induzi-lo ao desencanto com a política institucional e resultar em graves desvios. Centrais sindicais e movimentos de trabalhadores sem-terra podem ceder à tentação de se transformarem em alternativas partidárias, esvaziando suas bandeiras específicas. Movimentos sociais talvez se vejam incapazes de conter a revolta de seus militantes em busca de vias alternativas, não-institucionais, para as mudanças sociais. Não há quem possa garantir que tais alternativas venham a respeitar os limites do estado de direito.

A luta armada interessa hoje, no Brasil, a apenas dois setores: aos fabricantes de armas e à extrema-direita, saudosa dos tempos em que o fuzil subjugava a lei. Porém, não se pode pedir a 53,9 milhões de pobres que tenham paciência infinita. Embora o governo federal venha implantando políticas sociais inovadoras, como o Fome Zero e, dentro dele, o Bolsa Família; o microcrédito; o Pronaf; o seguro-safra; a demarcação de terras indígenas, como Raposa Serra do Sol; o cooperativismo; e a ampliação do emprego formal; ainda falta muito para que sejam atingidos os compromissos históricos do PT, como a efetivação das reformas agrária e trabalhista.

Ninguém sai incólume de uma crise. Esta que ora abala o país e, no olho do furacão, o PT, deverá servir para que a nova direção do partido ­ a provisória e a que será eleita em setembro ­ repense seus mecanismos internos de controle, seus princípios éticos, seus critérios de financiamento de campanha, seu processo de filiação, de formação política da militância e de qualificação dos dirigentes, sua visão estratégica de um Brasil menos desigual e mais desenvolvido.

O PT é fiador de uma incomensurável esperança, hoje centralizada no governo Lula. Pior que todas as maracutaias é ver o medo, frente às injunções do mercado financeiro, vencer essa esperança. Não é a corrupção que mais ameaça o PT. É o risco de o partido não cumprir seu papel histórico de agente de transformação social. Como disse Lula na Praça da Bastilha, em Paris, faz-se grande quem sabe pensar grande. Se o PT pensar apenas nas próximas eleições, cego ao horizonte de mudanças que ele descortinou, haverá de definhar como uma estrela sem brilho. E arrastará consigo a esperança de milhões de pessoas. Restará a desesperança, em cujo ventre germinam as sementes malignas da política: o fascismo, o fundamentalismo e o terrorismo.

Salvemos o PT, livrando-o de quem não o merece. Trata-se de salvar a democracia brasileira. E que a lição sirva a todos nós: quando não há clareza de quem são os nossos adversários, corremos o risco de nos comportar como eles.



(06 de agosto/2005)
CooJornal no 436


Frei Betto é escritor,
autor do romance policial "Hotel Brasil" (Ática), entre outros livros.
SP