
23/06/2007
Número - 534 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
VALORES DO MERCADO
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Na sociedade neoliberal cresce a produção de bens supérfluos,
oferecidos como mercadorias indispensáveis. O consumidor, massacrado pela
publicidade, acaba se convencendo de que a saúde de seu cabelo depende de
uma determinada marca de xampu. Melhor cortar a cabeça do que viver sem o
tal produto...
Para o neoliberalismo, o que importa não é o progresso, mas o mercado; não
é a qualidade do produto, mas seu alcance publicitário; não é o valor de
uso de uma mercadoria, mas o fetiche que a reveste.
Compra-se um produto pela aura que o envolve. A grife da mercadoria
promove o status do usuário. Exemplo: se chego de ônibus na casa de um
estranho e você desembarca de um BMW, acredita que seremos encarados do
mesmo modo?
Para o neoliberalismo, não é o ser humano que imprime valor à mercadoria;
ao contrário, a grife da roupa "promove" socialmente o seu usuário, assim
como um carro de luxo serve de nicho à exaltação de seu dono. Passa a ser
visto pelos bens que envolvem a sua pessoa.
Em si, a pessoa parece não ter nenhum valor à luz da ótica neoliberal. Por
isso, quem não possui bens é desprezado e excluído. Quem os possui é
invejado, cortejado e festejado. A pessoa passa a ser vista (e valorizada)
pelos bens que ostenta.
O mercado é como Deus: invisível, onipotente, onisciente e, agora, com o
fim do bloco soviético, onipresente. Dele depende a nossa salvação. Damos
mais ouvidos aos profetas do mercado - os indicadores financeiros - que à
palavra das Escrituras.
Idolatrias à parte, o mercado é seletivo. Não é uma feira-livre cujos
produtos carecem de controle de qualidade e garantia. É como /shopping
center/, onde só entra quem tem (ou aparenta ter) poder aquisitivo.
O mercado é global. Abarca os milhardários de Boston e os zulus da África,
os vinhos da mesa do papa e as peles de ovelhas que agasalham os monges do
Tibete. Tudo se compra, tudo se vende: alfinetes e afetos; televisores e
valores; deputados e pastores. Para o mercado, honra é uma questão de
preço.
Fora do mercado não há salvação - é o dogma do neoliberalismo. Ai de quem
não acreditar e ousar pensar diferente! No mercado, ninguém tem valor por
ser alguém. O valor é proporcional à posição no mercado. Quem vende ocupa
maior hierarquia do que quem compra. E quem comanda o mercado controla os
dois.
Mercado vem do verbo latino /mercari/, "trocar por algo", que deu também
origem a mercê, "o que se dá em troca de algo", donde mercearia e
mercenário. Comércio vem de "com mercê", com troca. Portanto, é dando que
se recebe. Quem não tem capital, produtos ou saber para oferecer no
mercado, só entra ofertando a força de trabalho, o corpo ou a imbecilidade
(vide TV aos domingos).
O mercado tem suas sofisticações. Não fica bem dizer "tudo é uma questão
de mercado". Melhor o anglicismo /marketing/, que significa "ciência do
comércio". É uma questão de /marketing/ o tema da telenovela, o sorriso do
apresentador de TV, o visual do candidato e até o anúncio do suculento
produto que prepara o colesterol para as olimpíadas do infarto. Vende-se
até a imagem primeiromundista de um país atulhado de
indigentes perambulando pelos sertões à cata de terra para plantar.
Outrora, olhava-se pela janela para saber como andava o tempo. Hoje,
liga-se o rádio e a TV para saber como se comporta o mercado. É ele que
traz verão ou inverno às nossas vidas. Seus arautos merecem mais espaço
que os meteorologistas. Dele dependem importações e exportações, inversões
e fugas de capitais, contratos e fraudes.
Nem todos merecem o mesmo status no mercado. Freguês, quitandeiro ou
barraqueiro é quem trabalha no mercado de alimentos. Executivo ou
investidor, quem opera no mercado financeiro. /Marchand,/ quem atua no
mercado de arte. Corretor, quem agencia no mercado imobiliário. Sujeito de
sorte, quem hoje se encontra no mercado de trabalho, ainda que condenado
ao salário-mínimo. E quem opera no mercado de capitais?
Especulador. Mas quem ousa apresentar-se com tal /marketing/?
É no mínimo preocupante constatar como, hoje, se enche a boca para falar
de livre mercado e competitividade, e se esvazia o coração de
solidariedade. A continuar assim, só restarão os valores da Bolsa. E em
que mercado comprar as nossas mais profundas aspirações: amor e comunhão,
felicidade e paz?
O mercado desempenha, pois, função religiosa. Ergue-se como novo sujeito
absoluto, legitimado por sua perversa lógica de expansão das mercadorias,
concentração da riqueza e exclusão dos desfavorecidos. Já reparou como os
comentaristas da TV se referem ao mercado? "Hoje o mercado reagiu às
últimas declarações do líder da oposição". Ou: "O mercado retraiu-se
diante da greve dos trabalhadores".
Parece que o mercado é um elegante e poderoso senhor que habita o alto de
um castelo e, de lá, observa o que acontece aqui embaixo. Quando se
irrita, pega o celular e liga para o Banco Central. Seu mau humor faz
baixar os índices da Bolsa de Valores ou subir a cotação do dólar. Quando
está de bom humor, faz subir os índices de valorização das
aplicações financeiras.
/ /Para Jesus, "ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará
um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não
podeis servir a Deus e ao dinheiro"/ /(/Mateus/ 6, 24). Mas quem se
interessa em servir a Deus se ele é invocado pelo fundamentalismo de Bush
e Bin Laden? Enquanto os senhores da guerra
tomarem o Seu Santo Nome em vão, estaremos distante da tão almejada paz.
(23 de junho/2007)
CooJornal
no 534
Frei Betto é escritor,
autor do romance autor de "Gosto de Uva" (Garamond), entre outros livros
SP
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