
07/07/2007
Número - 536 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
Mar de Cristal
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Talvez eu, mineiro de quatro costados,
descenda dos Christo, ciganos que aterrorizaram a região de Ribeirão Preto
em tempos antanhos e que, não duvido, guardam parentesco com o artista
plástico de origem búlgara de mesmo nome, famoso por embrulhar monumentos
como o Reichstag, o parlamento alemão.
Digo-o por ser um viajador inveterado. Não que me sinta atraído por terras
estranhas ou estrangeiras. Bem observava meu pai ao afirmar que viajo, mas
não passeio. Sim, no íntimo acalento o sonho de habitar uma cartuxa,
cultivar em torno da ermida uma horta para consumo próprio e não me ocupar
senão de orar e escrever.
A vida de pregador, a cuja Ordem religiosa pertenço, leva-me aos quatro
cantos do mundo. O que me intriga, pois não tenho nada especial a dizer.
Não detenho títulos acadêmicos, nem fiz nenhuma descoberta ou teoria que
mereça propaganda. Por que tantos convites, em especial da Europa, onde
sobram mentes muito mais cultas e iluminadas do que a minha? Ninguém é
juiz de si mesmo, ensinam o Evangelho e também Marx que, como bom judeu,
herdou influências bíblicas. Se me é dado direito a uma opinião, direi que
sou convidado, não pelo que teria a dizer, mas por ser um otimista
inveterado.
Eis o que esperam de mim, com perdão da redundância: esperança. Para a
cultura predominante na Europa ocidental, confortavelmente assentada nos
êxitos econômicos da União Européia, o presente é o futuro. Resta
preservá-lo. De que é feito esse presente? De consumismo. Produtos,
objetos dos sonhos de gerações passadas, encontram-se, agora, ao alcance
da maioria, como carros. Na Espanha há 36,9 milhões de habitantes e 46
milhões de telefones celulares.
Esse bem-estar atrai imigrantes pobres que a Europa trata de afugentar. Em
fevereiro, a Agência Européia de Controle de Fronteiras (Frontex) passou a
policiar oito aeroportos europeus para vigiar o fluxo de imigrantes
latino-americanos. Estão sob controle os aeroportos de Madri, Barcelona,
Lisboa, Paris, Amsterdã, Milão, Roma e Frankfurt.
Apegado à sua ordem e progresso - que para nós é apenas um lema na
bandeira - o europeu ocidental se pergunta: para quê? É isto a vida, mera
reprodução biológica em condições excelentes de consumo e bem-estar?
Na falta de sentido, os europeus investem na satisfação dos sentidos.
Ingerem mais comida e bebida e, também, mais drogas. Alguns poucos, como
meus anfitriões, se indagam: até quando viveremos nesse mundo de opulência
(gastam, por ano, o equivalente a 15 bilhões de reais apenas com sorvete!)
cercados por um mundo de tanta pobreza?
Vou mundo afora semeando esperança, partilhando minha fé abraâmica no ser
humano. Sim, sou menos crédulo agora que já me foi dado dispor de 2/3 do
tempo médio de vida humana. Não mais espero a coincidência entre o meu
tempo pessoal e o tempo histórico. Já não creio no homem e na mulher
novos, frutos do casamento de Teresa de Ávila com Ernesto Che Guevara.
Todos nós, humanos, temos defeito de fabricação, que a Bíblia chama de
pecado original. Nem por isso deixo de acreditar que, um dia, haveremos de
criar uma sociedade cujas instituições inibam nossas tendências nefastas e
perversas.
Nisto reside a minha esperança: de que o novo não decorre de um ilusório
sentimentalismo que nos induziria a amar o próximo como a si mesmo. A
solidariedade virá como exigência política; caso contrário estará em risco
a vida na Terra. Não é o asteróide Apofis, que se aproximará da Terra em
2029, que nos ameaça. É o nosso modelo concentrador de renda, devastador
da natureza e excludente dos direitos humanos. Então muitos compreenderão
que o socialismo é a expressão política do amor.
Tudo isso me veio à cabeça ao aguardar o metrô numa estação de Madri, cujo
nome me soa literário: Mar de Cristal. Belo título para um romance. Como
não hei de escrevê-lo, utilizo-o para batizar esta crônica.
(07 de julho/2007)
CooJornal
no 536
Frei Betto é escritor,
autor do romance "Gosto de Uva" (Garamond), entre outros livros
SP
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