
28/07/2007
Número - 539 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
Sementes de girassol
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No próximo ano, fecharei a minha caixa
de Pandora e farei passarinhar todos os bons propósitos que desafiam a
minha fé. Recolherei num jardim de tulipas essa tristeza d'alma que
definha o meu ego arrastado pela vaidade.
No próximo ano, soterrarei de perdões o meu mal-querer e de afagos a
sórdida tendência de apostar na desgraça alheia. Erguerei a minha taça à
vitória do outro e brindarei de louvores as conquistas dos que invadem a
minha reserva de caça. Serei dom e não dor.
No próximo ano, fecharei as asas da ambição e, vazio de desejos, cavarei
túneis no mais profundo de mim mesmo para deixar fluir as águas da
plenitude.
No próximo ano, desviarei o olhar da lascívia que esgarça o meu espírito e
os ouvidos aos tambores que me impedem de dançar na contramão. Não
buscarei senão os odores suaves da brisa matinal e darei ao meu paladar o
que amarga a língua e adoça o espírito.
No próximo ano, porei em prática sábias lições de vida: pão que se guarda
endurece o coração; a cabeça pensa onde os pés pisam; o contrário do medo
não é a coragem, é a fé. Sairei à rua repleto de silêncio, grávido do ser
que me transfigura em morada divina.
No próximo ano, segredarei aos peregrinos os três aforismos de meu
bem-viver: Deus tem sabor de justiça; a vida trafega a bordo do paradoxo;
a morte é verbo e não se conjuga no presente, é sempre pretérito ou
futuro.
No próximo ano, espalharei em meu peito sementes de girassol e cobrirei a
cabeça com ervas aromáticas, para que a minha pele transpire luz e a minha
boca profira perfumes. Não me privarei de suculentas alegrias e só darei a
meu corpo o que empanturra o espírito.
No próximo ano, cultivarei cada um de meus cabelos brancos, modelarei de
gorduras a flacidez de minhas carnes e preservarei cioso as rugas que
maquiam de sabedoria o meu rosto. Serei belo como o tronco nodoso de uma
velha castanheira que, retorcida de braços, abraça o Sol para em seus pés
irradiar sombras.
No próximo ano, tratarei o semelhante com a reverência dos anjos e lavarei
as portas de minha cidade para acolher em festa os que trazem boas novas.
No contorno dos dias, amarrarei fitas brancas e escovarei a boca da noite
até limpar a garganta de sonâmbulas aflições.
No próximo ano, não permitirei à língua servir de passarela ao mal-dizer,
nem darei ouvidos a quem insiste em violar meu silêncio. Voarei sereno
como os albatrozes que, todas as manhãs, impedem que o fragor das ondas
fira a pele porosa das praias.
No próximo ano, não me deixarei iludir pelos profetas da desgraça, nem me
hipnotizar pelos que pincelam de cores vivas os cemitérios. Ficarei atento
ao olhar perplexo cravado no rosto encardido dos que suplicam uma côdea de
pão e um gole de paz.
No próximo ano, trocarei minhas horas preciosas por horas ociosas e,
recostado num banco de parque, darei milho aos pombos e cantarei laudes
com os mendigos que, deitados na grama, escarnecem da agonia do tempo.
Banharei a minha pele na lagoa pontilhada de moedas faiscantes de prata e,
boca aberta sob o chafariz, beberei até embriagar-me de insensatez.
No próximo ano, violarei todas as regras da civilidade torpe que me
engravata de cabrestos e rasgarei as etiquetas que me fazem perder horas
em cuidados supérfluos. Arrancarei do pulso as algemas do relógio que me
escravizam ao ritmo implacável de minutos e segundos.
No próximo ano, serei irresponsavelmente feliz, liberto dessa onipotência
que recobre de fúria a minha excessiva fragilidade. Confessarei a mim
mesmo os meus pecados e, crucificado numa roda gigante, ressuscitarei com
a inocência das crianças que sorriem prenhes de vertigens.
No próximo ano, serei cidadão de um país governado por um cavaleiro que
chegue montado num burrico e tenha as mãos calosas como quem cavou as
entranhas da terra. Não darei lugar aos príncipes revestidos de palavras
vãs, nem porei a minha confiança nos arautos surdos ao clamor dos
desvalidos.
No próximo ano, farei de Deus o meu pai e o meu pão, e abrirei em laços o
meu abraço, até transmutar solitários em solidários. Amarei sobre todas as
coisas, para que a minha riqueza, despojada de bens, seja farta em afetos.
Fecharei os olhos para ver melhor e, ao crepúsculo, serei consumido e
consumado pelas chamas que ardem no lado avesso do meu ser.
(28 de julho/2007)
CooJornal
no 539
Frei Betto é escritor,
autor do romance "Gosto de Uva" (Garamond), entre outros livros
SP
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