09/02/2008
Número - 567

FREI  BETTO
ARQUIVO


 

Frei Betto



Aprender com as águias
 


Entre as aves, a águia é a que vive mais, cerca de 70 anos. Mas para atingir esta idade, aos 40 anos ela deve tomar uma difícil decisão: nascer de novo.

Aos 40 anos suas unhas ficam compridas e flexíveis, dificultando agarrar as presas com as quais se alimenta.
O bico alongado e pontiagudo se curva. As asas, envelhecidas e pesadas, dobram-se sobre o peito, impedindo-a de empreender vôos ágeis e velozes.

Restam à águia duas alternativas: morrer ou passar por uma dura prova, ao longo de 150 dias. Esta prova consiste em voar para o cume de uma montanha e abrigar-se num ninho cravado na pedra. Ali, ela bate o velho bico contra a pedra, até quebrá-lo. Espera, então, crescer o novo bico, até que possa arrancar as suas unhas. Quando as novas unhas despontam, a águia extirpa as velhas penas e, após cinco meses, crescidas as novas penas, ela atira-se renovada ao vôo, pronta para viver mais 30 anos.

Ao longo da existência, a possibilidade de nossa sobrevida depende, muitas vezes, de seguir o exemplo da águia. Quem se entrega, abatido, ao peso do sofrimento e das dificuldades, tende a abreviar seus dias. Deixa  de viver como quem voa e passa a sobreviver como um réptil que rasteja.

Reaprender a voar é ousar recolher-se para começar de novo. Eis a sabedoria de todas as religiões tradicionais ao exigir de seus noviços um tempo de reclusão. O mesmo ocorre em muitas nações indígenas, quando o jovem, para ser considerado adulto, é recolhido a uma cabana isolada, onde o xamã o submete a provas e o introduz em conhecimentos específicos.

Mas é preciso voar até a montanha. De cima, vê-se melhor. Talvez por isso Deus, ao criar o ser humano, tenha colocado a cabeça acima do coração. Ver com as emoções é correr o risco de desfigurar os desenhos. Os contornos mostram-se muito mais nítidos quando observados com serenidade.

E saber esperar. Primeiro, ousar perder o que envelheceu: o bico, as unhas, as penas. Despojar-se do que atravanca os nossos passos. Segundo, aguardar pacientemente o tempo da maturação. Enfim, dar o salto pascal, abrir as asas para a vida e, sem medo, empreender o vôo rumo a novos horizontes.

Ao decidir ingressar na vida religiosa, passei o ano de 1965 recluso no convento dominicano da Serra, no alto da rua do Ouro, em Belo Horizonte. Sofri muito o contraste com a vida que deixara no Rio, mergulhado no ativismo estudantil e na efervescência de um Brasil que, como nação, se preparava para o segundo vôo da águia. Tudo adjetivava-se novo: o cinema novo, a bossa nova, a nova literatura etc., até que o golpe militar de 1964 abateu a ave em pleno vôo. O noviciado, porém, levou-me ao mais profundo encontro comigo mesmo e com Deus. Ainda hoje guardo a certeza de que aquele foi um dos anos mais felizes de minha vida.


Nota de “Pausa para a Filosofia”: Não há casos registrados de automutilação em aves com a finalidade de uma suposta “renovação”.

 


(09 de fevereiro/2008)
CooJornal no 567


Frei Betto é escritor,
autor do romance "Gosto de Uva" (Garamond), e "A menina e o Elefante" (Mercuryo Jovem), entre outros livros
SP