
15/03/2008
Número - 572 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
CARTÕES: DINHEIRO "DE NINGUÉM"
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"Este dinheiro não é de ninguém. É dinheiro público,
da prefeitura", afirmou o empresário André Wertonge
Teixeira a Bruno Marzano, assessor da prefeita de Magé
(RJ), em gravação registrada pela investigação de fraudes em
compras que teriam gerado, em um ano, prejuízo de R$ 100
milhões em seis prefeituras fluminenses.
Essa a lógica de todos que abusam de recursos
públicos. Fingem ignorar que se trata de dinheiro do povo.
Bem diz Aristóteles: "O poder desperta a ambição e faz
multiplicar a cobiça".
A poderosa máquina do Estado não gera um centavo;
capta bilhões através do insaciável apetite do Leão: a
multiplicidade de impostos, que agora a reforma tributária
promete reduzir, unificar e até isentar... os ricos,
evidentemente.
São vocês, leitor e leitora, que com seu trabalho
sustentam os governos e pagam todos os salários, do
presidente da República ao faxineiro da cadeia pública, dos
juízes ao porteiro da escola municipal. Ora, a idéia de que
dinheiro público "não é de ninguém" suscita, em pessoas
desprovidas de valores éticos, aquela comichão de quem acha
na rua uma nota de cinqüenta reais: o que não é de ninguém,
é meu. Assim, o público é apropriado pelo privado e o
coletivo pelo indivíduo.
Por que existem cartões de crédito e débito? Porque
incentivam o consumo e evitam que se leve dinheiro no bolso
nesses tempos em que amigos do alheio andam à espreita. De
posse do cartão, perde-se um pouco a dimensão dos gastos.
Basta passar a moeda de plástico numa maquininha e,
pronto!, o produto está adquirido e a conta paga.
Se essa síndrome do consumismo é estimulada pelas
operadoras de cartões, que por isso cobram juros
exorbitantes, o que dizer do funcionário público que lida
com dinheiro que não é seu? Se não discerne entre o
suficiente e o bastante, cai facilmente em tentação. Poupa
o seu dinheiro e vai à farra e à forra com o "dinheiro de
ninguém".
É claro que, entre os 11 mil portadores de cartões
corporativos do governo federal, nem todos são tão glutões
no consumo quanto o reitor da Universidade de Brasília. A
maioria é gente honesta e criteriosa. E muitos servidores
nem sequer aceitaram portar cartões. Pressentiram que a
ocasião faz o ladrão. Porém, tudo indica que uns tantos não
tiveram o menor escrúpulo de torrar o nosso dinheiro em
consumo desnecessário, supérfluo. E, descobertos, ainda
insistem em nos chamar de bocós ao apresentar
malabarísticas justificativas de como oneraram os cofres
públicos.
Agora, a CPI promete investigar o uso e abuso dos
cartões, para saber quais passaram de corporativos a
cooperativos... com o próprio bem-estar do usuário. O
Planalto deu a mão à palmatória e se adiantou ao baixar
instruções que limitam os saques em dinheiro. Reconhece,
pois, que havia, sim, algo de podre no reino que não é o da
Dinamarca...
Quem tem medo da CPI? Se portadores de cartões agiram
com integridade, que se investigue e demonstre à nação que
são caluniosas as denúncias de malversação. Se há
corrupção, deve o governo se antecipar e punir exemplarmente
os culpados. O que não se explica é temer transparência no
uso do dinheiro público. Afinal, ele é, sim, de alguém. É
de todos nós que trabalhamos, geramos riquezas e pagamos
impostos. E esperamos retorno à altura de nossos direitos e
necessidades. Temos, pois, o dever de fiscalizar e exigir
prestação de contas da fortuna depositada em mãos das
autoridades graças ao nosso sangue, suor e lágrimas. Apenas
em janeiro deste ano, e sem a CPMF, o governo federal
arrecadou R$ 62,5 bilhões.
Há 119 anos D. Pedro II escreveu em carta de 10 de janeiro
de 1889: "A política de nossa terra cada vez me repugna
mais compreendê-la. Ambições e mais ambições do que tão
pouco ambicionável é."
Lidar com dinheiro alheio exige humildade, vocábulo
que vem de húmus, terra, ter os pés na terra e não a cabeça
nas nuvens. E requer auto-estima, saber viver segundo as
limitações de seus próprios recursos, sem invejar os ricos
ou pretender ingressar no seleto clube da opulência pelo
beco da falcatrua.
Se corrupção existe é devido a uma única causa: a
impunidade.
(15 de março/2008)
CooJornal
no 572
Frei Betto é escritor,
autor do romance "Gosto de Uva" (Garamond), "A menina e o
Elefante" (Mercuryo Jovem) e
"Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros
SP
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