
26/04/2008
Número - 578 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
A raposa e os ovos
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Era uma vez uma raposa que jurou dar proteção às galinhas. Postou-se à porta do
galinheiro e, prometendo preparar para o futuro uma omelete que alimentaria a
todos, tomou para si os ovos que, por medida de segurança, estavam distribuídos
por diferentes cestas. Muitas galinhas não se importaram, acreditando que também
os ovos dos gaviões haviam sido seqüestrados. Deixaram-se inclusive convencer de
que a raposa havia cortado as asas dos gaviões. Estes, precavidos, guardaram
seus ovos em outras montanhas e, se tinham cedido algumas penas, era para que
todos pensassem que haviam perdido as asas.
Galinhas que não botavam muitos ovos - e, portanto, perderam pouco nas mãos da
raposa - com o tempo começaram a ter que deixar o poleiro e a receber meia
ração. Mas, convencidas de que não se faz uma imensa omelete sem quebrar muitos
ovos, suportavam estoicamente as longas filas para recuperar uma migalha
qualquer do que haviam produzido. Aos poucos, foram descobrindo quão difícil era
botar mais ovos se não havia ração suficiente e nem poleiro onde se encostar.
A raposa, entretanto, continuou assegurando que tudo corria às mil maravilhas.
Claro, para ela, que se havia transformado na poderosa galinha dos ovos de ouro,
estava tudo bem, sobretudo depois que ela abriu as portas do galinheiro aos
abutres de outras plagas. Estes conseguiram convencê-la de que podiam modernizar
o galinheiro, torná-lo mais produtivo, inclusive introduzindo galinhas
mecânicas, desde que as verdadeiras galinhas fossem privadas da omelete e
virassem canja para o banquete entre a raposa, os gaviões e os abutres.
Naquelas mesmas paragens, há tempos um leitão exigira o sacrifício de todos os
carneiros, sob o pretexto de que se estava assando um enorme bolo que, mais
tarde, seria dividido e cada um receberia sua fatia. O bolo cresceu, o leitão
comeu com seus amigos e a fome grassou entre os carneiros tosquiados, que
passaram a viver de esperanças.
Toda a artimanha do leitão e da raposa consistia em não permitir que carneiros e
galinhas descobrissem que, unidos, podiam governar a si mesmos, livrando-se de
leitões e de raposas. Pois ensina a sabedoria que sente frio aquele que entrega
a lã a quem já está agasalhado e passa fome quem dá os ovos a quem sempre se
fartou de omeletes.
(26 de abril/2008)
CooJornal
no 578
Frei Betto é escritor,
autor do romance "Gosto de Uva" (Garamond), "A menina e o
Elefante" (Mercuryo Jovem) e
"Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros
SP
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