
26/07/2008
Número - 591 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
LÁ VEM A QUARTA FROTA
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No dia 12 de julho os EUA decidiram reativar sua IV Frota Naval – a que vigia os
mares do Sul -, atuante entre 1943 e 1950, em decorrência da Segunda Guerra, e
desde então desativada. Compõem a frota 22 navios: quatro cruzadores com
mísseis; quatro destróieres com mísseis; 13 fragatas com mísseis; e um
navio-hospital.
Segundo as autoridades usamericanas, o objetivo é “realizar ações humanitárias”.
Então, para que tantos mísseis? E, nesse intuito, por que não começar por
permitir que Porto Rico recupere a sua soberania, suspender o bloqueio a Cuba,
devolver a base naval de Guantánamo (retirando os prisioneiros de lá e do limbo
jurídico a que estão condenados) e reduzir os subsídios agrícolas que
estrangulam o livre comércio?
Segundo o almirante Gary Roughead, chefe das operações navais, a IV Frota visa a
combater o tráfico de drogas, de armas e de pessoas, bem como a pirataria que
ameaça o fluxo do livre comércio nos mares do Caribe e da América do Sul.
Não seria mais sensato começar por combater o tráfico de drogas e armas dentro
dos EUA que, segundo relatório da ONU divulgado em junho, figuram entre os
maiores consumidores desses dois produtos letais?
É a velha história do lobo mau pretendendo enganar o chapeuzinho vermelho. Quem
acredita que nariz tão grande é apenas para cheirar a netinha? Não é muita
“coincidência” a IV Frota ser reativada no momento em que Cuba aprimora sua
opção socialista, Daniel Ortega volta a presidir a Nicarágua, o Brasil descobre
reservas petrolíferas sob a camada pré-sal, e a América do Sul se vê governada
por pessoas como Chávez, Lula, Correa, Kirchner, Morales e, em breve, Lugo, que
não morrem de amores pelo Tio Sam e se empenham em reduzir a dependência de seus
países em relação aos EUA?
O comandante da IV Frota é o contra-almirante Joseph Kernan, de 53 anos. Não fez
carreira na Marinha convencional, e sim na força de elite (SEAL) destinada a
operações especiais de combates não-convencionais e repressão ao terrorismo.
Muito humanitário...
Os EUA sentem-se incomodados com a atual conjuntura latino-americana. Em
especial, com o fato de o presidente Lula empenhar-se na criação da UNASUL
(União das Nações Sul-Americanas) e do Conselho Sul-Americano de Defesa (agora
apoiado até pela Colômbia), dois organismos que, como o Mercosul e a Alba,
excluem a participação dos EUA e tornam inócuos o Tratado Interamericano de
Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa, que sempre estiveram
sob controle da Casa Branca.
A exemplo da União Européia, a UNASUL integrará o Mercosul e a Comunidade Andina
de Nações, incluindo a Guiana e o Suriname. A integração completa desses dois
blocos foi formalizada em Brasília em maio deste ano, durante reunião dos
presidentes sul-americanos. A UNASUL ficará sediada em Quito; seu Banco do Sul,
em Caracas; e o parlamento em Cochabamba, na Bolívia.
Ainda por trás da fantasia de vovozinha, Tio Sam quer impedir que a China tome
conta dos mares do Sul. Hoje, 90% do comércio mundial depende de navios, e
Pequim se empenha em ampliar e proteger suas rotas, incluindo as que conduzem ao
nosso Continente.
O governo brasileiro já manifestou sua desconfiança à Casa Branca. As recentes
descobertas de petróleo nas costas brasileiras, no momento em que o barril passa
dos US$ 140, com certeza suscitam a cobiça dos EUA, cujos fornecedores, como a
Venezuela, não são confiáveis.
Com tantas embarcações de alta tecnologia e poder de fogo em nossos mares, os
usamericanos poderão pesquisar a plataforma submarina e controlar a navegação de
nossos países rumo à África e à Ásia.
Ensina a zoologia que todo animal acuado se defende com ferocidade. É o caso de
Tio Sam, cuja moeda perde poder de compra, a economia mergulha numa crise de
longo prazo, o atoleiro no Iraque não mostra nenhuma luz no fim do túnel, e os
brancos republicanos se vêem na iminência de transferir o poder para um negro
democrata.
(26 de julho/2008)
CooJornal
no 591
Frei Betto é escritor,
autor de "A arte de semear estrelas (Rocco), "Gosto de Uva" (Garamond), "A menina e o
Elefante" (Mercuryo Jovem) e
"Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros
SP
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