
19/09/2008
Número - 599 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
Somos todos pós-modernos?
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A resposta é sim se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos
idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags,
a chinesa em capitalismo de Estado; e tantos partidos de esquerda assumiriam o
poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a
direita?
Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: A arte
virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não
são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da
robótica, a gloogleatização da cultura, a telecelularização das relações
humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e
formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.
Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogêneo ao
plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se de cínica, baila
ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às
"irracionalidades" do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia, ao
consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas.
Para os pós-modernos a história findou, o lazer se reduz ao hedonismo, a
filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade.
Já não se percebe a distinção entre urgente e importante, acidental e essencial,
valores e oportunidades, efêmero e permanente.
A estética se faz esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundidade
ou ao conteúdo. Ao pós-moderno é refém da exteriorização e dos estereótipos.
Para ele, o agora é mais importante do que o depois.
Para o pós-moderno, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico;
ele prefere, neste mundo conflitivo, ser espectador e não protagonista,
observador e não participante, público e não ator.
O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em
algo ou em alguém. Distancia-se da razão crítica criticando-a. Como a serpente
Uroboros, ele morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico.
Basta-se a si mesmo, indiferente à dimensão social da existência.
O pós-moderno tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de
raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o
shownalismo.
O discurso pós-moderno é labiríntico, descarta paradigmas e grandes narrativas,
e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa;
Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.
O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério.
Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias.
Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.
A ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de ocasião,
oportunidade, conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.
A pós-modernidade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de
Platão, onde nossas sombras têm mais importância do que o nosso ser, e as nossas
imagens do que a existência real.
(19 de setembro/2008)
CooJornal
no 599
Frei Betto é escritor,
autor de "A arte de semear estrelas (Rocco), "Gosto de Uva" (Garamond), "A menina e o
Elefante" (Mercuryo Jovem) e
"Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros
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