10/10/2008
Número - 602

FREI  BETTO
ARQUIVO


 

Frei Betto



Grampos: O Estado Onisciente

 

Nem o presidente do STF escapou do grampo telefônico. Já se sabia que Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Lula, caiu na rede de escutas da Polícia Federal, por ocasião do caso Daniel Dantas.

Ano passado, uma alta autoridade do governo de São Paulo me confidenciou que, no Estado, havia pelo menos 15 mil telefones grampeados. Olhos e ouvidos do Big Brother se dilataram de tal maneira que até o delegado que obtém na Justiça autorização para grampear acaba tendo o próprio telefone sob escuta.

Hoje, qualquer veículo pode portar, sem que o dono saiba, uma etiqueta eletrônica chamada RFID (radio frequency identification) com chips ou transponder de radiofreqüência que transmitem informações ao passar diante de um dispositivo de leitura. Basta colocar um chip no paletó de uma autoridade para conhecer todos os seus passos. Em alguns países, se cogita incluir um transponder nos documentos de identidade. Assim, poder-se-ia conhecer a identidade de toda uma multidão reunida numa manifestação.

Imagine-se inocular um transponder numa pessoa, como já se faz com animais! Delírio? Freqüentadores habituais da discoteca Beach Club, em Rotterdam, se deixam implantar no braço um chip do tamanho de um grão de arroz. Assim, ingressam sem serem incomodados pelos seguranças e não precisam portar dinheiro, pois o consumo, graças à leitura eletrônica, é debitado automaticamente de suas contas.

Nem todo dia, entretanto, é do caçador. No jogo da espionagem, muitas vezes o tiro sai pela culatra.

Um engenheiro cubano tomava um aperitivo no bar de um hotel de Londres. Um turista estadunidense o abordou, furioso contra o governo de Fidel Castro. O cubano se declarou apolítico; ali estava para cuidar de projetos hoteleiros em Cuba financiados por capital europeu. Pouco lhe importava se em seu país havia ou não democracia. Tinha um bom padrão de vida e a família era feliz.

Meses depois, num hotel de Madri, o engenheiro encontrou o mesmo usamericano. Desta vez, o gringo abriu o jogo: era coronel aposentado, trabalhava para a CIA e monitorava agentes dentro de Cuba. Para provar sua competência, exibiu fotos do engenheiro com a família reunida em piquenique num parque de Havana. E sabia que o engenheiro se ocupava da reforma do Palácio da Revolução, onde Fidel tinha seu gabinete.

Era época do governo Nixon. Após muita conversa e a promessa de uma recompensa de US$ 100 mil, o engenheiro concordou em embutir um rádio-transmissor na parede da sala do Conselho de Estado, órgão supremo do governo cubano. Porém, não se dispôs a voltar a seu país com o aparelho.

O agente da CIA deu-lhe uma senha e um código. Devia ouvir a rádio Voz da América todos os dias num determinado horário. Ao tocar determinada música no início e no fim de uma notícia simplória, era o sinal de que o texto da notícia continha a mensagem. Decodificada, o engenheiro encontrou uma pedra num canteiro de obras abandonado. Abriu-a em casa. Dentro, o transmissor.

Durante dois anos, tudo que se falou na sala onde se reunia o Conselho de Estado foi captado nos EUA. Kissinger, então presidente do Conselho de Segurança usamericano, acresceu à recompensa financeira um relógio Rolex de ouro. O engenheiro havia feito um bom trabalho.

Fidel se preparava para viajar à África. Sabia que a CIA lhe preparava mais um atentado. Na despedida ao povo cubano, agradeceu de público os serviços prestados à Revolução pelo engenheiro. Graças a ele, durante dois anos o regime cubano desinformou Washington. Todas as conversas transmitidas haviam sido simuladas.
 



(10 de outubro/2008)
CooJornal no 602


Frei Betto é escritor,
autor de "Cartas da Prisão (Agir), "A arte de semear estrelas (Rocco), "Gosto de Uva" (Garamond), "A menina e o Elefante" (Mercuryo Jovem) e
"Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros
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