
30/05/2009
Ano 12 -
Número 634 
FREI BETTO ARQUIVO
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Frei Betto
PROFESSORES DE ÉTICA
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É tautológico falar em falta de ética no Congresso Nacional. Os escândalos
se sucedem, do deputado que está “ se lixando” para a opinião pública aos
funcionários do Senado que, a exemplo de notórios senadores, ostentam um
padrão de vida muito superior a seus vencimentos e à renda declarada.
Felizmente há exceções. Lástima que a indignação e o protesto de
parlamentares íntegros tenham pouca ressonância nas ruas. Em geral,
noticiam-se farra de passagens aéreas, castelos mirabolantes, mansões
paradisíacas. Poucos tomam conhecimento da coerência de parlamentares
incorruptíveis, incapazes, inclusive, de aceitar caixa dois em suas
campanhas eleitorais.
A corrupção decorre da falta de caráter. Esta se manifesta, de modo
especial, quando a pessoa se vê investida de uma função de poder, do
policial que extorque o comerciante ou do delegado que embolsa pagamento
de fianças ao empresário que suborna o funcionário público para obter
licitações fajutas; do prefeito que se apropria dos recursos da merenda
escolar a parlamentares que se julgam no direito de pagar, com dinheiro
público, o salário de sua empregada doméstica.
Como dar um basta em tanta maracutaia? Difícil. O ser humano padece de
duas limitações insuperáveis: defeito de fabricação e prazo de validade. É
o que a Bíblia chama de “pecado original”. Sempre haverá homens e mulheres
desprovidos de caráter, de princípios éticos, dispostos a não perder a
primeira oportunidade de enriquecimento ilícito. A solução não reside no
cultivo das virtudes, que tem sua importância. Fosse assim, os colégios
religiosos, onde estudaram Collor e Maluf, seriam fábricas de anjos.
A solução é criar, via profunda reforma política, instituições que inibam
os corruptos e mecanismos de controle popular. Em suma, tornar a nossa
democracia, meramente delegativa, mais representativa e, sobretudo,
participativa.
Enquanto a solução não aparece, sugiro que convidem, para ministrar um
curso de ética no Congresso Nacional, Suas Excelências José Gomes da
Costa, Rodrigo Botelho, Francisco Basílio Cavalcanti, Clélia Machado,
Sebastião Breta e Fagner Tamborim.
O que essas pessoas fizeram não deveria ser considerado extraordinário. No
entanto, frente aos casuísmos, ao nepotismo, à malversação, ao cinismo de
parlamentares tentando justificar o injustificável, convém propalar o
exemplo desses professores de ética.
José Gomes da Costa é gari da prefeitura de São Paulo. Ganha R$ 600 por
mês. Vinte e seis vezes menos que um deputado federal. Com este salário,
sustenta a si e três filhos. Dia 18 de maio último, ao varrer a rua,
encontrou um cheque do Banco do Brasil no valor de R$ 2.514,95. José
precisaria trabalhar quatro meses, sem nenhuma despesa, para acumular esta
quantia. Procurou uma agencia do banco e devolveu o cheque. Motivo:
vergonha na cara.
Gari, Rodrigo Botelho encontrou, em 26 de maio de 2008, durante Campeonato
Mundial de Tênis de Mesa, no Rio, mochila com R$ 3 mil em dinheiro. Viu o
nome do dono nos documentos, chamou-o pelo microfone e devolveu. Rodrigo é
normal, tem caráter.
Francisco Basílio Cavalcante, faxineiro do aeroporto de Brasília, pai de 5
filhos, ganha salário mínimo. No dia 10 de março de 2004, encontrou uma
bolsa de couro no banheiro do aeroporto. Dentro, US$ 10 mil e um
passaporte. Se fosse juntar o salário que ganha, sem gastar um só centavo,
levaria 3 anos e 4 meses para obter igual soma.
Francisco declarou: “Tem que ser assim. O que não é nosso precisa ser
devolvido. Um dinheiro que não é da gente não pode ser do bem. Não pode
trazer felicidade”.
Clélia Machado, 29, é auxiliar de serviços gerais e faz bico como manicure.
Sozinha, cria duas filhas, uma de 7 anos, outra de 9. Sua renda mensal não
chega a R$ 550. Todos os dias ela faz a faxina do banheiro do posto da
Polícia Rodoviária Federal em Seberi (RS), onde trabalha há três anos. A
11 de março de 2008, encontrou, junto à privada, um pé de meia enrolado em
papel higiênico. Dentro, US$ 6.715.
Clélia entregou os dólares aos policiais. Entrevistada, declarou: “Bem que
podia ser meu de verdade. Mas já que não me pertencia, devolvi na hora.
Era o certo a fazer.”
O gari Sebastião Breta, 43, da prefeitura de Cariacica (ES), devolveu os
R$ 12.366 mil que achou num malote no lixo. O nome do homem que fora
roubado estava gravado numa etiqueta. Sebastião ganha salário mínimo.
Indagado se pensou em ficar com o dinheiro, disse: “Nunca. Desde a
primeira vez que vi sabia que devia devolver. Quando não consigo pagar as
minhas contas fico doido, pensava o tempo todo como estaria o dono do
dinheiro, imaginava que ele também não podia pagar suas contas porque
tinha perdido tudo. Eu e minha mulher não conseguiríamos dormir à noite.
Acho esquisito pegar o que não é da gente”.
Fagner Tamborim, 17 anos, entregador de jornais na cidade de Pirajuí, a
398 km de São Paulo, ganha R$ 90 por mês. Enquanto pedalava sua bicicleta,
encontrou na rua um malote com R$ 6 mil. Devolveu-o ao dono.
“Vi que tinha muito dinheiro e cheques. Levei pra minha mãe, que ligou
para o banco.”
O melhor do Brasil é o brasileiro, não necessariamente nossos
parlamentares.
(30 de maio/2009)
CooJornal
no 634
Frei Betto é escritor,
autor de "Cartas da Prisão (Agir), "A arte de semear estrelas (Rocco), "Gosto de Uva" (Garamond), "A menina e o
Elefante" (Mercuryo Jovem) e
"Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros
SP
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