15/04/2016
Ano 19 - Número 980

FREI BETTO
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Frei Betto




Dois gênios em festa no céu

Frei Betto - CooJoornal, Revista Rio Total


Em 23 de abril de 1616 – há exatos 400 anos – houve festa no céu. Com certeza, um grande sarau literário. Naquela data, dois gênios da literatura universal deixaram o nosso mundo, que tão bem retratam em suas obras: o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes.

Se considerarmos que o calendário gregoriano havia sido adotado no reino de Castela desde o século XVI, e pela Inglaterra apenas em 1751, Shakespeare teria vivido dez dias a mais do que Cervantes.

Shakespeare, nascido em 1564, viveu 51 anos. Cervantes, nascido em 1547, 68. Talvez os dois tenham se admirado com a coincidência de data ao se evadirem dessa Terra tão atribulada, e felizes por, afinal, se conhecerem pessoalmente. E exultaram se comungavam a esperança expressada, séculos mais tarde, por Jorge Luis Borges: “Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca.” Espero que sim, pois nesse curto período de vida é impossível ler todos os livros que me atraem.

Shakespeare se casou aos 18 anos com a rica Anne Hathaway, de 26, que lhe deu três filhos: Susanna e os gêmeos Hamnet e Judith. Em Londres, trabalhou como ator e escritor. Até 1590, influenciado pelo teatro italiano, escreveu principalmente comédias, como A megera domada e A comédia dos erros.


O melhor de sua produção foi entre 1590 e 1613. Em 1595, Romeu e Julieta. Em 1599, Júlio César. De 1600 a 1608, Hamlet, Rei Lear e Macbeth. Ao longo da vida, produziu 16 comédias, 12 tragédias e 11 dramas históricos.

Machado de Assis teria buscado em Otelo a inspiração para criar o personagem Bentinho, do romance Dom Casmurro. E a revolta dos canjicas, na novela O alienista, seria a versão tupiniquim de rebelde Jack Cade, da peça Henrique IV.

O conto A cartomante, de Machado de Assis, abre com a famosa frase de Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia.”

Cervantes, com sua obra-prima, Dom Quixote de la Mancha, é considerado o pai do romance moderno. Assim como a obra de Shakespeare consolidou o idioma inglês, a de Cervantes produziu o mesmo efeito no espanhol.

Em 1569, aos 22 anos, Cervantes se refugiou na Itália, após ferir um desafeto com quem duelou. Em 1571, participou da batalha de Lepanto, quando a esquadra formada por países cristãos derrotou os soldados do Império Otomano, de fé islâmica. Ferido, ficou com a mão esquerda inutilizada.

Ao navegar de Nápoles a Castela, em 1575, foi capturado por corsários argelinos, que o retiveram por cinco anos, até receberem o resgate. Viveu em Lisboa entre 1581 e 1583.

De retorno à Castela, casou com Catalina de Salazar, em 1584, aos 37 anos, com quem teve a filha Isabel. No ano seguinte, publicou seu primeiro romance, A galatea. Preso em 1597 por dívidas bancárias, durante o ano que permaneceu no cárcere esboçou o Dom Quixote, cuja primeira parte se editou em 1605 e, a segunda, dez anos depois. Escreveu também novelas, comédias e poemas.

Além da coincidência de falecerem na mesma data, Shakespeare e Cervantes foram mestres no modo de tratar temas políticos com refinado talento artístico e, ao mesmo tempo, dissecar as profundezas da alma humana.



(15 de abril, 2016)

CooJornal nº 980

Frei Betto é escritor.
Autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco); "Um Deus muito humano – um novo olhar sobre Jesus” (Fontanar), "Um homem chamado Jesus" (Rocco), "Oito vias para ser feliz” (Planeta), “Alfabetto – Autobiografia Escolar” (Ática) e “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.
twitter:@freibetto
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