01/05/2020
Ano 23 - Número 1.171

FREI BETTO
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Frei Betto

O caminho da história

Frei Betto - CooJoornal, Revista Rio Total


Na segunda-feira, Cléofas e Tamez, casal de discípulos, dirigem-se para o povoado de Emaús, a onze quilômetros de Jerusalém. Têm o semblante triste. Conversam sobre o trágico desfecho da atuação de Jesus.

À saída da Cidade Santa, um forasteiro segue na mesma direção. Aos poucos, ombreia com eles e pergunta: O que conversais?

Cléofas reflui o passo: És o único em Jerusalém que ignoras o sucedido nesses dias?

O que aconteceu?

Os chefes dos sacerdotes entregaram Jesus, o Nazareno, para ser condenado à morte e o crucificaram. Minha mãe foi testemunha de tudo que ele padeceu.

O intruso mostra-se intrigado: Jesus? Quem era ele?

Um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e do povo, diz Tamez. Esperávamos que fosse libertar Israel, frisa Cléofas; até minha mãe tornou-se discípula dele.

E quando tudo isso ocorreu?

Há três dias, informa Tamez.

Quer dizer que ele vos decepcionou? provoca o estranho.

É verdade, admite Cléofas, que algumas mulheres do nosso grupo nos assustaram. Ontem, muito cedo, foram ao túmulo e não encontraram o corpo. Retornaram com a notícia de que tinham visto um anjo que assegurara que ele está vivo. Sabe como são as mulheres, enxergam mais que os olhos!

Tamez encara o marido com olhar severo.

Ele prossegue: Alguns dos nossos foram ao sepulcro conferir e encontraram as coisas tal como as mulheres haviam dito e o corpo não estava lá.

O forasteiro muda de tom: Insensatos e lentos de coração! Como duvidais do que os profetas anunciaram? Não se previa que o Messias passaria por tudo isso?

Cléofas espanta-se: Quer dizer que também estás a par do que ocorreu?

Sim, mas queria avaliar vossa fé, justifica-se. Não sabeis que, há cerca de quinze séculos, Deus se revela ao nosso povo? Manifestou-se a Moisés na sarça que ardia em fogo e não se consumia, quando ele pastoreava as ovelhas de seu sogro Jetro no monte Horeb, e fez dele um libertador. Deu-lhe sabedoria para enfrentar o faraó e coragem para conduzir o povo no deserto ao longo de quarenta anos. Também no Horeb, expôs-se a Elias, não no furacão que rachou as montanhas, nem no terremoto ou nas chamas, mas na brisa suave. Quem sabe não compreendestes os sinais, por esperar tremores de terra e nuvens de fogo, quando tudo se resume na brisa que sopra do Gólgota?

Revelou-se a Isaías pelos anjos que, no Templo, abriram seus lábios com brasas incandescentes. Também a Jeremias, por um ramo de amendoeira e uma panela fervendo. A Daniel expressou-se em sonhos e visões. Javé manifestou-se até pela prostituição da mulher de Oséias. É um fogo abrasador, um Javé ciumento ou um Deus que se apaixona como um homem que jamais trai a sua amada, ainda que ela o rejeite e se entregue a braços e abraços fortuitos. E, antes de habitar entre nós, Deus falou-nos por João Batista, que preparou os caminhos do Filho do Homem. Quando o Invisível se tornou visível, o Filho do Homem introduziu-nos na adoração em espírito e verdade. Por que, entre tanta coerência, haveria ele de mentir?

O casal julga que o viajante é um escriba simpatizante do nazareno.

Cléofas objeta: Sim, teu resgate de nossa história ajuda-nos a reatar os elos da promessa de Javé. É espantoso que Deus seja Jesus de Nazaré!

Tamez acrescenta: Isso é terrivelmente próximo a nós e, no entanto, como as amarras do egoísmo nos impedem de ficar próximos a ele!

Jesus, observa Cléofas, mudou a imagem de Deus que havia em minha cabeça.

O desconhecido concorda: Agora as Escrituras devem ser lidas a partir do Nazareno.

Sim, admite Tamez, não é Javé quem nos revela Jesus, é Jesus quem nos revela Deus.

A mulher não perde a oportunidade de levantar uma questão que suscita a curiosidade dos israelitas: Na sua opinião, qual é o nome de Javé?

É Amor, responde o homem.

Ao se aproximarem de Emaús, o forasteiro faz menção de ir adiante. Animados pela conversa, Cléofas e Tamez insistem: Permanece conosco; a tarde já se faz noite.

Não, não posso, devo seguir, diz ele.

Cléofas não se intimida: Se é problema de dinheiro, não se preocupe; temos o bastante para pagar-lhe a hospedaria.

Decide, então, ficar.

À hora do jantar, à mesa diante de um cordeiro assado temperado com manjericão, o desconhecido toma a iniciativa, de acordo com o costume judaico: segura o pão, abençoa-o, parte-o, tempera-o com sal e distribui entre os três.

Os olhos deles se abrem - reconhecem Jesus. No mesmo instante, ele fica invisível.


Emocionados, Cléofas e Tamez comentam entre si: Não ardia o nosso coração quando ele nos explicava as Escrituras!




Frei Betto é escritor, autor de “Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca” (José Olympio), entre outros livros.
twitter:@freibetto
http://www.freibetto.org/




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