
19/12/2009
Ano 13 -
Número 663

ARQUIVO
GERALDO BATISTA
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Geraldo Batista
O humor no vestibular |
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Estava inclinado a escrever sobre os novos escândalos de Brasília. Para
que? Para dizer que nada será apurado? Que ninguém será punido? No
Brasil sempre será assim, pois o grande culpado é o povo que vota nos
mesmos bandidos de sempre. Sendo assim, preferi falar de coisas mais
amenas.
Os causos que eu vou narrar são de um tempo em que só havia vestibular
da Universidade Federal, em nosso Estado. O exame era um acontecimento
muito importante e começava na mesma data em todo o país. Eram quatro
dias de prova. Hoje, o vestibular perdeu a graça, pois as universidades
e as faculdades particulares realizam vestibulares quatro vezes por
semana. É o famoso vestibular agendado. O candidato marca o dia e a hora
do seu “vestibular”. Só é reprovado que tem um bom pistolão.
Vou contar alguns causos do tempo em que eu era coordenador do
vestibular da UFRN.
A Universidade isentava do pagamento da taxa da inscrição os candidatos
de famílias carentes. Assim, muitos, completamente despreparados, se
submetiam ao vestibular só pelo fato de não pagarem a taxa de inscrição.
Vou começar pelos causos que envolviam o endereço do candidato.
Alguns dias após a expedição dos cartões dos candidatos terem sido
enviados pelos Correios, uma candidata ao Curso de Medicina, onde se
concentram, geralmente, os mais bem preparados, me procurou:
- Seu Zé, não recebi meu cartão.
Pelo tratamento, já deu para sentir o nível da suplicante. Procurei o
cartão da candidata entre os que os Correios haviam devolvido. Lá estava
escrito: Maria Pereira da Costa. Rua Mons. Honório, 30 Macau/RN. No
verso do cartão, o aviso do carteiro: “Destinatário desconhecido no
endereço".
- Minha filha, leia aqui.
Com a cara mais inocente do mundo, ela falou: Eu não moro em Macau, moro
na Cidade da Esperança, aqui em Natal.
E porque você escreveu esse endereço? Você se mudou recentemente?
- Não senhor, eu pensava que endereço era o lugar onde a gente nasce.
Como eu não seio (sic) o nome da rua onde nasci, botei uma qualquer.
- Você acha que tem peito para fazer vestibular para medicina?
- Num seio. (sic).
- Minha filha, desculpe a franqueza, mas eu tenho certeza que você não
tem mesmo peito de jeito nenhum. Ela saiu tranquila sem entender o
trocadilho.
No dia da inscrição, fui ajudar a um candidato a preencher a ficha de
inscrição. Quando perguntei o seu endereço ele respondeu:
- Não sei onde moro, porque me mudei há pouco tempo, mas pode botar
assim: Vizinho ao Buraco da Filó, que todo mundo sabe onde é, lá na
Cidade Nova.
- O que danado é o Buraco da Filó?
- É um bar que tem perto lá de casa. E como Filó faz “favor” a todo
homem, todos a conhecem.
Uma candidata disse a Rosângela a funcionária que estava recebendo as
inscrições:
- Olhe, bote aí meu endereço assim: Cidade Satélite, próximo à
cigarreira da Biloca.
- Mas esse endereço é muito vago ...
- Que nada, todo mundo na Cidade Satélite conhece Biloca, é uma mulher
que dá bombons às meninas para deixar ela passar a mãos nos peitos
delas.
Coerentemente, nunca vi um candidato que não soubesse preencher a ficha
de inscrição passar no vestibular.
(12 de dezembro/2009)
CooJornal
no 662
Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatistaaraujo@gmail.com
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