27/06/2009
Ano 12 - Número 638


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

 

Geraldo Batista



Olhando a chuva

Naquela tarde chuvosa de um domingo sem graça, fiquei olhando a chuva que batia na vidraça da janela. Não havia nenhum movimento na rua. Natal naquela época ainda era uma província, onde se podia viver sem preocupação com segurança. Assalto era coisa de cinema. Eu era feliz e não sabia, como cantava Ataulfo Alves. Eu não passava de um jovem pobre e sonhador. Nas grossas gotas que escorriam da vidraça eu via apenas as silhuetas de duas jovens que tinham deixado no coração daquele menino grandes marcas que o tempo teimava em não apagar. A primeira tinha, no máximo 14 anos. Mesmo de olhos fechados, eu a via do mesmo jeito brejeiro de menina simples que trabalhava na cozinha do seminário para ajudar ao parco orçamento familiar. No refeitório eu só a via da cintura para cima e dependendo da posição nem sequer via seu rosto. Mas ela sempre dava um jeito de mostrar sua carinha risonha me fitando com seus olhinhos dos quais eu via sair faíscas que flechavam meu coração. Aquilo para um jovem de 16 anos era a glória suprema. Eu me sentia o máximo. Repetia para mim mesmo, essa menina linda gosta de mim. Na verdade, Nevinha não era linda. No máximo, engraçadinha. Mas isso era apenas um detalhe sem a menor importância naquela idade. Agora eu podia dizer aos meus colegas de minha confiança que estava flertando com a menina que ajudava às freiras. Se Antenor, o dedo duro descobrisse, eu seria expulso.

Escrevi inúmeros bilhetes para ela. Jamais tive coragem de entregar pelo menos um. Todos tinham o mesmo triste fim, picados bem miudinhos e jogados na privada. A missa dominical era o momento mais esperado da semana. Nesse dia, eu a via de corpo inteiro, podia admirar sua blusinha exibindo um pequeno par de seios pedindo mais tecido para se acomodarem. A toca de olhares fazia que a missa passasse rápida, por mais demorado que fosse o sermão.

Minha grande frustração foi quando ela, não sei porque razão, deixou de trabalhar com as freiras. As refeições não tinham o mesmo sabor. Faltava o sal do olhar de Nevinha, um amor que morreu sem ter nascido, como diria Olavo Bilac.

A segunda era muito diferente da primeira, devia ser filha de gente “mais ou menos” como se falava para dizer que alguém era da classe média, pois estudava interna em um colégio de freiras.

Ela me descobriu durante uma procissão do Senhor Morto, numa Sexta-feira Santa. Era realmente muito mais bonita do que Nevinha. Durante muitos meses, a via todos os dias, na missa do colégio, onde eu ia ajudar ao padre Cornélio a celebrar a missa. Mas nem sequer sabia seu nome. Somente em outra procissão em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, consegui trocar meia dúzia de palavras com ela e descobrir que se chamava Cristina. Já era quase noite. Foi o suficiente para passar a noite quase em claro para que seu rostinho lindo e sua cabeleira loura não saíssem de minha cabeça. Tinha nome de rainha, mas para mim era uma princesa.

Um dia, o destino nos separou. Cristina não passou de uma estrela cadente que a gente acha muito bonita mas, some de repente.

Quando vim para Natal, as duas vieram em minha bagagem sentimental e naquela tarde de chuva ficaram brincando com minha imaginação. Mesmo sem querer, senti “o gosto de jiló verdinho, plantado na lua nova do penar”, uma saudade boa danada.



(27 de junho/2009)
CooJornal no 638
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatistaaraujo@gmail.com

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