10/10/2008
Ano 12 - Número 602


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

 

Geraldo Batista




DE RESTAURANTES
 

Dos bons, Natal já os tem. O que nos falta é um pouco mais de profissionalismo e uma boa dose de humildade. Humildade? Para que danado serve humildade em um restaurante? Talvez a palavra não seja esta. Modéstia, possivelmente, fosse mais apropriada. Vou me explicar melhor, citando um exemplo. Em Natal havia um restaurante chamado Raro Sabor. Todo ser humano importante, ou metido a, que comia naquela “casa de pasto” (acho horrível esse nome) virava notícia nas colunas do dia seguinte, com chamadas do tipo: “A elegantéééééééééérima fulana ocupava uma mesa ...” O empresário partidon se deliciava com um prato de massas...” Mas, se o cliente fosse da classe C como eu, não deveria passar nem na porta. Em maio de 2002, após assistir a uma peça no teatro, resolvi jantar ali com um casal amigo, José Pires e Gláucia, meus amigos, irmãos e compadres. Levamos um chá de cadeira de lascar. Lá para as tantas, veio uma jovem nos atender. Solicitamos um vinho decente e ela falou que a casa não servia aquele tipo de vinho, talvez pensando que eu não pudesse pagar. Os pratos vieram depois de uma demasiada espera, com a desculpa de que a casa estava cheia. Ora pombas, restaurante que se presa deve estar sempre preparado para servir bem com a casa cheia. Já fui incontáveis vezes a um restaurante de nossa cidade, famoso pelos seus pratos de camarão e sempre a casa está lotada e com uma boa fila de clientes esperando a vez, e nem por isso os pratos levam mais de meia hora para serem servidos. Saí do Raro Sabor fazendo uma promessa, cumprida até hoje. Nunca mais botar os pés ali, mesmo sabendo que meu dinheiro vale igualzinho aos dos cidadãos de classe A. E ainda avisei à moça que me atendeu: Essa bodega vai fechar por incompetência. Deus ouviu minhas preces, (ou seria minha praga?) o restaurante fechou há muito tempo.

O que sua proprietária não deveria saber é que sempre que viajo para fora do país ou mesmo para o Rio ou para São Paulo, freqüento restaurantes decentes onde sou tratado como se fosse gente. Em Lisboa, gosto muito do Bacalhau na brasa, com batatas ao murro, do Laurentina, logo ali na rua Conde de Valbon, no Saldanha, onde se come o melhor bacalhau lisboeta, regado a um vinho verde Alvarinho, que os restaurantes de Natal não servem, com direito a um bate papo imperdível com o proprietário, o simpático Sr. Santos, pois pois. Em Barcelona, onde os donos dos restaurantes não querem saber se o cliente é da classe A ou C, come-se muito bem, no Quo Vades, por exemplo, onde é servida a melhor paella da Espanha, com direito a um vinho de Rioja decente e uma boa conversa do Sr. José, um garçom muito atencioso. Certa vez, após ter jantado ali, acompanhei uma rotariana brasileira que desejava comer uma boa paella. Ao apresentá-la ele disse: ”Sente-se um pouco para tomar uma meia botella de vinho, oferta da casa por ter trazido sua amiga.”

Todos os inúmeros cronistas sociais dos jornais de Natal. (Somente em dois jornais têm onze) confundem notícia com puxa-saquismo. Que falta faz a grande Eneida que nunca poupou os cronistas puxa-sacos. (Eneida de Moraes1904/1971, ou simplesmente Eneida, foi jornalista, escritora e pesquisadora do carnaval carioca.)
 


(10 de outubro/2008)
CooJornal no 602
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatistaaraujo@gmail.com

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