11/11/2006
Ano 10 - Número 502


 

Geraldo Batista

 

Um amor sem fim

 

“Não tema o romantismo. Faça coroas de margaridas
e enfeite a cabeça de quem você ama.”
(Artur da Távola)


Vocês já viram alguma coisa mais ridícula do que um velho apaixonado? Um coroa carregando mais de 39 anos de casamento, ainda preocupado em agradar sua amada no dia dos namorados?

Pois eu conheço um babaca que acorda todo feliz só porque sonhou com sua amada, como se fosse um jovem mancebo dos romances de antigamente. Será que isso existe realmente, ou será fruto de uma mente desocupada? Existe, e eu o conheço de perto. É gente de minha mais estreita intimidade.

O mais grave de tudo isso é que ele pensa que do alto dos seus sessenta e muitos anos ainda pode dar conselhos, receitar lições de amor aos jovens apaixonados que elegeram na véspera de Santo Antônio para festejar o amor. O que teria essa figura quixotesca para dizer aos namorados? Primeiro, que o amor não tem data. Cuidado para que o dia dos namorados não se transforme em mais um dia do comércio. O amor de verdade não liga para hora, não dá bolas para o calendário. O verdadeiro amor exige apenas que você seja, e não que você esteja.

O amor de verdade é definitivo, mesmo parecendo ridículo aos olhos de quem não aprendeu a amar. O amor não tem limites. As atitudes mais absurdas são permitidas para quem ama de verdade. Você tem que ser, até o fim aquele garotão que saiu correndo para contar aos amigos que conseguiu arrancar o primeiro beijo na boca, com direito aos “acompanhantes”, que transformam em momento mágico todo e qualquer carinho temperado com a dose exata do amor.

Se você amar de verdade vai querer dizer aos que o cercam que ela é a mais bonita, mesmo que não seja nenhuma deusa grega. Mas fique certo de que o sol que ilumina o amor tem poderes de transformar qualquer uma gata borralheira em princesa.

Quem ama de verdade dá muito e cobra pouco, banca o ridículo e não está nem aí para a opinião alheia. Sente seu coração ocupado, cheio de um sentimento gostoso que ninguém precisa explicar. Inventa palavras que, no dicionário dos homens, não deve existir, mas que você precisa dizer.

Dizem que o amor é cego. E daí? Para que olhos, se que o que conta são os sentimentos? O verdadeiro amante, mesmo depois de uma vida inteira de convivência,ainda fica ansioso esperando a hora do momento maior, tantas e tantas vezes repetido. Sim, repete o mesmo ritual, com o mesmo entusiasmo,porque sua amada não tem idade. Ela não ficou velha, porque ele esqueceu de contar os anos dela. Até o seu cheiro é o mesmo, porque ela, hoje e sempre, tem cheiro de mulher, perfume que nem os franceses conseguiram imitar.

Você, meu caro leitor, tem todo o direito de me chamar de maluco, de ridículo, ou de coisa parecida. Não estou nem aí. Para mim, tudo isso é absolutamente normal e atende pelo doce nome de “Selma”.



(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldo@concursos-rn.com.br