02/12/2006
Ano 10 - Número 505


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Retrato em preto e branco

 

No início de fevereiro de 2001, vinha eu da praia de Pirangi, quando uma senhora me pediu uma carona. Trazia três caixas com mangas e uma bacia de mangabas. Seu destino era a feira das Rocas. Ao entrar em minha camioneta, deu um longo suspiro e disse:
“Esta minha vida é muito pesada, tá difícil de agüentar“.
Em seguida, pegou um livro que estava em cima do banco e começou a ler. Resolvi puxar conversa com ela, para tentar descobrir a razão da dificuldade de sua “pesada vida”. Entabulamos o seguinte diálogo:
- Minha comadre, o que está acontecendo com sua vida?
- “Minha vida dá uma novela completa e ainda sobram alguns capítulos para outra.”
- Estou percebendo que a senhora estudou. Fez até que série?
- “Só estudei até a quarta série, mas, naquele tempo, os estudos nas escolas públicas eram bem melhores que os de hoje. Minha única filha que estuda está na sexta série e sabe menos do que eu.”
- Quantos filhos a senhora tem?
- “Eu? Eu tenho onze. Dez do primeiro marido, que me largou e morreu no ano passado, e mais um de oito meses, com o rapaz que está vivendo comigo.”
- Quantos anos a senhora tem? (aparentava pelo menos cinqüenta).
- “Tenho trinta e quatro anos de idade, mas de sofrimento e aperreio de vida devo ter muito mais.”

Olhei bem para ela. Apenas trinta e quatro anos e já tão envelhecida. Por trás daquele “projeto” de mulher, dava para se perceber que aquele corpo já fora, razoavelmente, bonito.
- Com quantos anos a senhora casou?
- “Eu era uma criança de treze anos. Não tinha nem o corpo formado ainda, os peitos não tinham nem saído, tinha só aqueles dois pitoquinhos. Mas o pior de tudo é que eu era uma abestalhada. Não tinha a menor idéia de como era o que o homem fazia com a mulher. Ouvia as colegas da escola falarem em sexo, essas coisas de ficar com homem, mas nunca passou disso. Minha mãe muito menos me ensinou. O resultado é que fui estuprada na minha primeira noite. O homem arrancou minha roupa e foi para cima de mim feito um animal. Não me disse uma só palavra de explicação. Não me fez um só carinho antes e nem depois. Logo aquela noite que a gente lê nos romances e vê nas novelas que deveria ser a tal de lua-de-mel. Para mim, foi uma lua-de-fel.
Para dizer a verdade ao senhor, o fogo, que mal começava a sentir, se apagou ali mesmo. Nunca mais tive prazer de me deitar com um homem. Ao invés de prazer, eu sentia nojo. Mesmo assim, fui obrigada a ter dez filhos e depois mais um.”
- E dá para sobreviver com tantos filhos?
- “Só Deus sabe o que eu passo para sustentar meus filhos. O mais velho vive em Goiás com um tio. A mocinha de catorze anos vive em Natal com meu pai. Essa é a única que eu tenho certeza de que estuda. E tem outra, que nem me lembro o nome, que é criada desde novinha por uma tia que mora ... mora ... sabe que não sei o nome do lugar em que ela mora?! Essa, talvez estude, porque minha tia tem condições para botar ela na escola. Deve estar com doze anos.”
- Com essa idade, se a senhora não ligar as trompas, ainda pode engravidar. Está na hora de usar algum método anticoncepcional.
- “Só vivo com outro homem porque a necessidade me obriga. Eu só tenho um sitiozinho que produz manga e outras besteiras para sobreviver. Esse rapaz que vive comigo trabalha fora e traz alguma coisa para dentro de casa. As trompas, não ligo porque não posso pagar. Comprimidos, não posso comprar e a tal camisinha o homem não quer usar. Estou entregue nas mãos de Deus.”

Dessa vez, quem deu um suspiro fui eu. Quando chegamos a Natal, ela pediu para eu deixá-la numa parada de ônibus que fosse para as Rocas. Tirou as três caixas com as mangas, a bacia com as mangabas e me ofereceu umas mangas como pagamento. Agradeci, dizendo que, na minha casa de praia, tinha uma mangueira que produzia muita manga e dei a ela o dinheiro para a passagem até as Rocas.
Agradeceu-me quase chorando:
“O senhor é um santo!”

Não sabe ela que sou apenas um grande pecador.

Esse retrato não tem nenhum retoque. É duro, cruel e real. Esta Maria é uma das milhões de vítimas do nosso desumano sistema de governo, no qual as desigualdades são uma prioridade. Entra governo e sai governo e cantiga da perua continua a mesma.



(02 de dezembro/2006)
CooJornal no 505


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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