09/12/2006
Ano 10 - Número 506


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Zé das Cuias manda notícias

 

Antes de tudo, preciso apresentar meu amigo Zé das Cuias, sobrinho de Tia Zulmira de Stanislaw Ponte Preta. Este personagem convive comigo há mais de duas décadas. É um caboclo sabido, malcriado e anarquista. “Governo só serve para atrapalhar. E os de hoje em dia, para nos assaltar.”

Acabei de receber uma carta de Zé das Cuias dizendo que está morrendo de saudades do Brasil. Tomei um susto. Ele havia prometido se mudar para Uganda se as coisas não melhorassem por aqui. E como as coisas estão de pior a pior, que nem a cantiga da perua, calculei que ele tivesse postado sua missiva de Campala ou de Jinja. Ledo engano, a carta foi postada em Acari, onde reside, na aba da serra do Bico da Arara. Em sendo assim, vamos à sua carta:

“Bico da Arara, dia 29 de novembro do ano da graça de 2006.

Seu moço, estou morrendo de saudades do Brasil, desde que descobri que havia sido exilado sem sair do lugar. Não estou variando não, como se diz por aqui quando alguém fica ruim dos miolos. Preste sua atenção. Inventei de ler um jornal e me deparei com seguinte notícia na última página de um dos nossos jornais: “Take a note... com happy hour, em open house, os amigos brindarão...” Se for ouvir rádio, meus ouvidos começam a doer, é um tal de ele e ela que não tem cristão que agüente. O prefeito ele vai aumentar o IPTU... A governadora ela foi vista com o namorado desfilando no Carnatal... Até uma ministra de Lula se saiu com esta na Voz do Brasil, que deveria primar pelo nosso idioma. “A segregação racial ela é uma prática... A locutora oficial anunciou: “A operação tapa-buraco ela vai começar imediatamente.”

Seu moço, neste país aonde eu vim parar, agora se fala assim: “De onde você é? Então. Sou de Natal.” Todas as frases começam com então. Decididamente, não estou no Brasil. Meu medo é morrer de banzo que nem os escravos.

Como se não bastasse, li também que tem novo rico tomando champanhe legítimo (francês obviamente) com goiamum. Valham-me Deus e Nossa Senhora do Desterro, em que país fui parar? No Brasil se fala português e se come caranguejo com cerveja ou com cachaça. Os jornais publicaram que o Brasil recebeu certificado dos Estados Unidos atestando que a pirataria está sendo bem combatida nesta bendita terrinha. Então, mais um motivo para eu está no país errado. Ninguém passa 10 minutos perto de uma parada de ônibus ou à beira-mar sem ser abordado por vários vendedores de CD, DVD, relógios, canetas, calculadoras, o escambau, tudo pirateado. Até o presidente Lula assiste filme pirateado, em seu avião, onde ele quase mora.

Outro dia, seu moço, fui assistir uma solenidade na Universidade Federal e o Reitor disse essa preciosidade: “Quero colocar que a Universidade precisa homenagear ......” Se ele falasse nossa língua diria: “Estou convencido de que a Universidade precisa homenagear...” Na universidade, o verbo colocar serve para tudo. É usado em lugar de sugerir, pedir, reclamar, solicitar, alertar, etc.

Estava eu no meu sossego, descascando uma laranja, quando toca o telefone e do outro lado da linha uma moça me diz: “O senhor pode estar me respondendo umas perguntas para eu puder estar entrevistando um idoso sobre o seu modo de viver? Respondi curto e grosso: Posso não minha bichinha, só quando você aprender a falar a nossa língua e não essa baboseira do BBB (Big bosta Brasil) aquele programa horroroso, da TV Globo.

Por tudo isso seu moço, preciso da sua ajuda para me orientar e dizer em que país estou vivendo, antes que comece a variar.

Do seu criado, Zé das Cuias”

Vou responder a carta de Zé, dizendo que isto aqui ainda é Brasil. A diferença é que um bando de imbecis quer acabar com nossa cultura e com seu modo civilizado de falar. A burrice já chegou à Voz do Brasil talvez como forma de homenagear o chefe da nação que teve preguiça de estudar e vive agredindo o vernáculo.


(09 de dezembro/2006)
CooJornal no 506


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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