16/12/2006
Ano 10 - Número 507


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Natal novamente

 

Certa vez, resolvi subir o Morro de Mãe Luíza, o mais famoso de Natal, de onde, a vista da cidade é deslumbrante. Naquele tempo, ainda era possível freqüentá-lo sem correr o risco de sair baleado ou morto. A noite acabara de cair. A cidade, lá embaixo, linda, iluminada, com luzes piscando anunciando que o natal estava chegando. Tudo era muito bonito. Mas alguma coisa me dizia que havia um grande abismo entre o morro e a cidade e não era apenas a distância e a enorme ladeira que o separava dos outros bairros. O abismo maior era a pobreza, o olhar triste das crianças famintas e a desesperança de ganhar algum presente na “Noite de festas” e o amontoado de casebres imundos denunciando o descaso das autoridades.

Olhando para trás, lembrei-me das noites de natal da criança pobre que morava em mim, convivendo com enormes dificuldades. Mesmo assim, a festa de natal sempre me encantou, apesar de os meus primeiros natais terem sido muito avarentos, sem direito a peru, a presentes, à mesa franca. Gostava de ver o presépio, ir pelas ruas estreitas de minha pequena cidade iluminadas por lamparinas de carbureto que exalavam cheiro forte. Fecho os olhos e vejo a tocha das lamparinas e ainda sinto o perfume dos abacaxis em rodelas, apregoados pelos vendedores.

A única coisa chata era ver, no dia seguinte, os meninos desfilando com seus brinquedos novos doados por um tal de Papai Noel, um velho filho da p... que nunca passou pela minha casa. Mas tudo isso é passado. Quando tive condições de comemorar o natal dignamente, nunca precisei da triste e ridícula figura vestida de vermelho. Quando entregava o presente aos meus filhos, olhava para eles e dizia: Esse presente foi seu pai que comprou com o fruto do seu trabalho.

O natal de antigamente era a festa do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, hoje virou festa de Papai Noel, festa do comércio, noite de comer peru e trocar presentes e nada mais. Podem me chamar de piegas, mas sou um saudosista incurável. Gosto da tradição, porque pensando bem, natal é tempo de renascer, de reunir a família, de agradecer ao Aniversariante mais um ano de vida, com saúde e com uns trocados para fazer uma ceia decente, embora não chegue nem aos pés da ceia de Lula. Aquilo sim é que é ceia de verdade pelo menos pelo que acabei de ler nas folhas: O ilustre casal que ocupa o palácio presidencial comprou 9.200 quilos de guloseimas, fora 400 potes de requeijão e 300 de iogurte. Nas mais de nove toneladas de alimentos estão incluídos mil e duzentos quilos de manteiga. Pelo visto, a família de Lula vai morrer com as veias entupidas, mas vai acabar de vez com a fome dos parentes e dos amigos. A fome dos pobres, deixa pra lá, fica para depois.

Para terminar minha conversa de hoje, registro um telefonema de Zé das Cuias me dizendo: “Seu moço, quantas escolas dariam para se construir com o dinheiro que o governo vive gastando com propaganda no horário nobre da televisão para dizer que a gente vive num paraíso?”

Zé, governo nenhum deveria fazer reclame do que faz. O pouco que investe é pago pelo contribuinte. (Reclame é uma homenagem a Noel Rosa).

Feliz natal para todos e um ano novo sem as trapalhadas governamentais.

P.S. Acabo de descobrir que Papai Noel existe, está morando em Brasília e acaba de conceder um natal gordíssimo aos senhores deputados e senadores.



(16 de dezembro/2006)
CooJornal no 507


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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