
23/12/2006
Ano 10 -
Número 508

ARQUIVO
GERALDO BATISTA |
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Geraldo Batista
Minhas bicicletas
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Peço permissão aos meus pacientes leitores para falar de algumas
lembranças de antigamente que ficaram impregnadas na alma desse menino
grande como se minha infância tivesse durado até hoje. Foi assim a
história de minhas bicicletas.
Quando menino, no meu pequeno Acari, vivia dizendo a Dona Amélia, minha
mãe, que um dia ainda compraria uma bicicleta.
- “Menino, deixe de sonhar, bicicleta é para menino filho de gente
rica.”
Quando vim morar em Natal, continuei alimentando aquele sonho. Via com
tristeza nos olhos os rapazes de minha idade passeando de bicicleta,
fazendo bonito diante das meninas. Aquilo me dava uma inveja dos diabos.
Comecei, então, a trocar o sonho por um projeto. Parecia até coisa da
SUDENE, a rainha dos projetos e das ruínas.
Fui à luta trabalhando duro na tipografia do Abrigo Melo Matos. Fazia
extra nos sábados, nos feriados e à noite quando entrava de férias do
colégio. No carnaval de 1956, trabalhei todos os dias e completei o
dinheiro para comprar uma bicicleta de segunda mão de um rapaz que havia
comprado uma motocicleta, como se chamava moto naquele tempo. Era uma
bicicleta sueca. Tinha até os raios de inox e freio contra-pedal. Um
luxo. Parecia até que tinha conseguido uma nova namorada, coisa muito
rara para um jovem que morava no Abrigo Melo Matos. Quando eu dizia a
uma garota que morava no Abrigo, invariavelmente levava um fora. Mesmo
assim, nunca neguei o meu endereço, pois sabia que a mentira tem pernas
curtas.
Como sempre tive um bom preparo físico, desafiava os velhos ônibus que
subiam resfolegando as ladeiras da cidade. Nos feriados, saía de
Petrópolis com meu colega Paulo Gurgel e ia chupar manga no sítio de
Dona Adélia, na atual Rua Nascimento de Castro, que nem nome tinha na
época, pois a cidade terminava na Avenida 15. O sítio ficava lá no fim
do mundo, onde hoje funciona uma universidade particular.
Usei a velha bicicleta até vendê-la por quase nada e comprar uma
Lambreta. Sou da geração que cantava “Hoje tenho uma lambreta para ver o
meu amor.” Como os leitores podem perceber, sou do tempo em que havia
músicas de carnaval, atualmente, mortas e sepultadas pela famigerada
“Axé music”.
Depois entrei na moda de correr pelas ruas. Fundei, juntamente com
alguns malucos, a Associação dos Corredores de Rua de Natal.
Em outubro de 1980, parei de correr. Comprei uma Caloi e passei a
pedalar de madrugada. Um verdadeiro vício. Um dia, fiz uma extravagância
e comprei uma Cadex, o topo de linha na época. Durante o veraneio de
2000, um garoto levou minha bicicleta. Batei-me uma tristeza como se
tivesse perdido uma namorada. Devido a alto do dólar, contentei-me com
outra mais modesta.
Em junho de 2005, seguindo o conselho do meu urologista, aposentei a
bicicleta e passei a caminhar e a correr com a “mundiça” do Bosque dos
Namorados. Mas fiquem certos de que guardo pela minha bicicleta uma
certa roedeira de quem perdeu um grande amor. Por isso, ela continua na
família para eu poder pelo menos olhar para ela de vez em quando.
E essa “mundiça”?. Isso é outra história. Fica para um futuro encontro
com os leitores.
(23 de dezembro/2006)
CooJornal
no 508
Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldo@concursos-rn.com.br
geraldo@talento-rn.com.br
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