06/01/2007
Ano 10 - Número 510


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

O mar de Pirangi

 

Mais uma vez estou diante do mar de Pirangi.

Minhas mangueiras, sempre generosas, pelo segundo ano consecutivo, resolveram antecipar a safra para o início de dezembro. Mesmo assim, ainda restaram algumas. À noite as escuto caindo. Hoje cedo, colhi oito, madurinhas e perfumadas. Quando a safra era na época normal, no mês de janeiro, chegava a colher cem mangas pela manhã. Desconfio que minhas mangueiras viraram socialistas. Produzem no início de dezembro para dividir sua riqueza com os pobres que vêm colher seus frutos. Como eles só levam as mangas maduras, não me sinto incomodado.

Estou escrevendo no alpendre do meu rancho à beira-mar de Pirangi, onde estou curtindo um verão com cara de inverno nordestino. São Pedro decretou que as chuvas caíssem a partir dos últimos dias de dezembro. E elas têm caído muito fortes, de preferência à noite para não afastar os veranistas.

Enquanto estava arrumando as idéias para preencher este canto de página, me chega Nêgo - Edmilson Luiz de Souza - o mais popular pescador desta praia, amigo de todos os “veronistas”. (Os pescadores só falam assim, nunca dizem veranistas.) Segundo ele, o mar está prometendo muita tainha. Que Deus o ouça. Nossas tainhas são bem mais modestas que as de Santa Catarina, mas em matéria de sabor, não deixam a desejar. Os pescadores esperam contar muitos peixes. Quando o pescador fala em “peixe contado”, se refere aos peixes que couberam ao dono da rede e aos pescadores. O pescador não é ganancioso. É generoso para com as mulheres que acorrem à praia na hora do arrastão e ficam ajudando a puxar a rede. Algumas só fazem assistir, mas todas recolhem peixes. É a chamada socialização do pescado.

Nêgo me contou que começou a pescar aos catorze anos, em 1957, quando a vila de Pirangi era habitada apenas por pescadores. Todos eram pobres e dependiam do peixe pra sobreviver. Muita gente só comia quando os paquetes (pequenos barcos) chegavam com pescado. A única cultura era a da mandioca plantada nas terras dos Lamartine, “um povo de mão aberta, que nunca fazia questão quando o povo plantava em suas terras”. A mandioca se destinava ao fabrico da farinha.

À beira-mar pescavam-se tainha e curimã, principalmente, puxadas na rede de trêsmaios (três malhas). A pescaria feita em barcos e jangadas trazia cangulo, biquara, ariocó, xaréu, cavala, ciobas, camurupim, etc. “Na minha jangada “Moça da Praia”, registrada na Capitania dos Portos, eu pesquei camurupim de mais de 40 quilos” - diz Nêgo - com uma ponta de orgulho. E ele continua falando: “Com a chegada dos veronistas os peixes foram escasseando. Os veronistas trouxeram algum ganho para uns, mas levaram o “salgado” (peixe) que faz muita falta na mesa do pobre.”

Antigamente, a praia de Pirangi tinha três redes trêsmaios. Hoje só tem uma. As redes eram tecidas com fio de algodão, que tinha que ser torcido com corrupios pelos torcedores, à beira-mar, onde tem muito espaço para estender os fios. Os mais conhecidos torcedores eram Cotó, Lió e Chico de Pedro Fogo, os três já falecidos. Depois que o fio era torcido, as mulheres começavam a tecer os panos. Depois de prontos, os panos eram medidos para se fazer o pagamento. Por cada braça de pano, as mulheres recebiam dois cruzeiros. Feitos os panos, os inteiradores se encarregavam de inteirar a rede e em seguida intraiar (entralhar). (Colocar a corda na rede para puxá-la.). O próximo passo era tingir a rede com a casca de cuipuna, socada no pilão e colocada dentro de um barril com água. A rede era mergulhada aos pouco no barril até ser totalmente tingida. A finalidade do tingimento era para que o peixe não visse a rede debaixo d'água. Os melhores inteiradores eram Severino de Barros e seu Oscar, ambos falecidos. Hoje, a rede é de nylon e já se compra pronta.

O dono da rede, atualmente é José Estevam, fica com a metade do pescado e o restante é dividido pelos pescadores. Quem conta e pesa o peixe é sempre o mesmo pescador, agora é Clidenor Luiz de Souza, que entrega tudo ao marchante - atravessador - Chico Victor, que compra o peixe por R$ 2,50 e revende na mesma hora por R$ 5,00.”

Perguntei a Nêgo por que o dono da rede e os pescadores não vendem, eles mesmos, o peixe. “Isso sempre foi assim, o peixe é do marchante. No veraneio é fácil vender o peixe, mas no resto do ano se tiver muito peixe e não tiver quem compre, o marchante tem que se virar e vender o peixe. Se boiar, o prejuízo é dele. E o marchante nunca quebra a palavra, paga direitinho aos pescadores e ao dono da rede.”

Nêgo ainda fala sobre o arrais, personagem importante na pesca. É ele quem descobre o cardume e fica de longe orientando a jangada com a rede para cercar o peixe. Nêgo foi arrais e os de hoje aprenderam o ofício com ele.




(06 de janeiro/2007)
CooJornal no 510


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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