27/01/2007
Ano 10 - Número 513


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Trabalhar? Nem pensar...

 

Recebi, recentemente, um recado, via Internet, de uma amiga, quase irmã, juíza do Trabalho, muito preocupada com uma situação no mínimo embaraçosa para ela. Contou-me ela o seguinte: “Geraldo, veja minha situação. Minha secretária do lar pediu as contas e antes me arranjou uma jovem do interior da Paraíba para substituí-la. Até aí nada de mal. A moça aparentava uns 19 anos, pelo menos. Quando solicitei os documentos, ela tinha penas a certidão de nascimento. Tomei um susto quando li sua data de nascimento. A menina tinha apenas 16 anos. Perguntei sobre sua escolaridade. Ela respondeu: deixei os estudos quando fazia a segunda série para trabalhar na roça, fazendo de tudo. Ultimamente, estava cortando lenha. Minha mãe ficou viúva e se eu não trabalhar a gente não tem o que comer. Sua pele, tostada pela inclemência do sol nordestino, é responsável pela aparência de mais idade. E agora o que vou fazer? Imaginem uma juíza do Trabalho ser surpreendida empregando uma menor. Expliquei à pobre moça minha situação. Ela só faltou se ajoelhar nos meus pés. – Doutora, não me mande de volta pelo amor de Deus. Aqui vou poder estudar à noite, vou ganhar muito mais, sem ficar o dia todo cortando lenha. Veja o estado de minhas mãos.

E agora, Geraldo, como vou sair dessa? Qual o crime maior? Empregar uma menor que deseja estudar ou mandar uma menina de volta para trabalhar num regime de quase escravidão, sem nenhum direito trabalhista, sem férias, sem décimo terceiro salário, sem direito a estudar? Só me resta apelar para Deus, pois pela lei dos homens não tenho nenhuma saída que me deixe com a consciência tranqüila.”

Minha prezada amiga, não sei o que responder. Empregar menor é crime. Talvez tenha que apelar para a gozação. O mesmo Estatuto da Criança e do Adolescente que proíbe com rigor o trabalho infantil, fecha os olhos para as crianças limpando pára-brisa nos semáforos ou vendendo balas e outras bugigangas e, o que é pior, oferecendo seus corpos mirrados para os fdp que inescrupulosamente as exploram sexualmente. Os jornais de Natal já mostraram, várias vezes, as meninas se oferecendo até por cinco reais. Que tal, você sugerir a essa menina ir para a rua fazer esse tipo de serviço? Deus não vai lhe perdoar, mas você deve escapar da punição dos homens.

Esse é o retrato sem retoques da infância e da adolescência do nosso país. Não gosto de citar meu próprio exemplo, mas gostaria de dizer que comecei a trabalhar aos nove anos de idade. Meu pai, muito pobre, sem emprego fixo, tinha que botar todos os filhos “na labuta” muito cedo. Pela manhã eu ia para o Grupo Escolar, e trabalhava durante à tarde. Tomei gosto pelo trabalho e mesmo depois do 70, ainda não cansei.

Doutora X, vou pedir a Deus que lhe mostre uma luz para seu problema. Reze de lá que eu rezo de cá. E conte com o meu silêncio sobre sua identidade. Posso adiantar que você não trabalha do Rio Grande do Norte, mas em sua terra, as crianças não são tratadas de modo diferente. Até.




(27 de janeiro/2007)
CooJornal no 513


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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