24/03/2007
Ano 10 - Número 521


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Uma aventura em São Miguel e Venha Ver

 

Nós temos aqui em Natal, um grupo de amigos chamados de “Os Caravaneiros”. Seria mais apropriado chamar de “A mundiça”. É cada um mais ordinário do que outro, inclusive eu. Na última semana do calendário, resolvemos fazer uma aventura em na chamada Tromba do Elefante, São Miguel e Venha Ver. Para os que estão esquecidos, o mapa do nosso Estado lembra um elefante. A bagunça começou pela hora da partida, marcada para cinco horas. Nós éramos seis, apenas três acordaram na hora. Assim ficamos eu e mais dois colegas de castigo esperando que os demais donzelos terminassem a maquiagem para sair. É dispensável dizer que os três foram xingados até a última geração.

Vencidos os 450 quilômetros de estrada, chegamos a São Miguel, onde fomos recebidos de braços abertos pelo Prefeito Dr. Galeno Torquato. Após uma pequena pausa para a indispensável visita ao sanitas como se diz em Lisboa, e um suco de frutas frescas, seguimos viagem para Venha Ver, última cidade na Tromba do Elefante, distante 10 quilômetros de São Miguel. Tínhamos sido avisados que a Prefeita Maria do Socorro Fernandes fazia questão de nos oferecer um almoço. Meu filho Gustavo Porpino nos alertara sobre o serviço oferecido pela anfitriã. Aquilo não é almoço, segundo Zé das Cuias é um “desmantelo” de comilança. Dona Socorro preparou “apenas” salada de verdura e legumes, filé, carne de sol, galinha caipira, dois tipos de bacalhau, paçoca de pilão, arroz de leite no queijo, macarronada, feijão verde com queijo e ova de curimatã, sem falar nos pudins e doces de sobremesa. O pior, meus prezados leitores, é que o pecado da gula estava somente começando. O Dr. Galeno tem cultura em bem receber. Além de nos oferecer hospedagem em sua maravilhosa casa de fazenda, nos arredores da cidade, nos exigia o “sacrifico” de um café da manhã cinco estrelas, repetidas refeições, na base de almoço, jantar e ceia, tudo muito bem acompanhado. Assim cometemos o pecado da gula, três dias seguidos, sem parar feito cantiga de grilo e rastro de carro.

Na sexta-feira, nos ofereceu um belíssimo passeio pelas serras de Venha Ver e adjacências, passando por pequenos lugarejos onde se podem ver uma paisagem deslumbrante e seus simpáticos habitantes descendentes de marranos e de portugueses. Tanto Venha Ver como São Miguel tem muitos descendentes de europeus. São crianças lindas, moças bonitas e adultos também. Durant e o passeio, paramos em um barzinho perdido no meio da montanha, em cuja parede estava escrito: Fiado co amanana. Perguntei a razão do co. O dono respondeu: “Foi pruquê o pintor se esqueceu de pintar o tracinho debaixo do c.” Ta explicado.

Quem viaja em grupo está sujeito a todo tipo de gente. Basta dizer que em nossa caravana, só escapava um jovem arquiteto, filho de um dos caravaneiros, um rapaz realmente sério. Os demais não merecem a mínima confiança. Na noite da sexta-feira, após uma magnífica recepção oferecida pelo Prefeito, aproveitaram-se do sono e do estado etílico de Zé das Cuias, para perpetrarem um crime hediondo. Furtaram um precioso bolo oferecido a seu filho pela Prefeita de Venha Ver. Graças à honestidade de Vicente, secretário particular e motorista do Prefeito, a verdade veio à tona. Ele disse alto e bom som: “Não sou homem de mentira, eu vi quando um de vocês surrupiou o bolo.” A polícia só não foi acionada, devido à promessa (feita e cumprida) de que outro bolo seria preparado. No frigir dos ovos, a turma quebrou a cara, pois Zé das Cuias só fez rir da brincadeira.

Entre vivos e mortos, escaparam todos. Voltamos no domingo, de alma lavada e mesmo um pouco mais gordos, nossas baterias estavam carregadas para enfrentar a cara feia da segunda-feira.



(24 de março/2007)
CooJornal no 521


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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