07/04/2007
Ano 10 - Número 523


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Eu sou puta

 

Calma gente, a puta neste caso não sou eu, não. Quando eu dirigia a Comissão do Vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (COMPERVE), devido ao meu jeitão de pai e moleque ao mesmo tempo, apesar de inflexível na hora do pega pra capar, os candidatos faziam do meu gabinete uma espécie de consultório sentimental. Recebia jovens indecisos quanto à escolha profissional, pais e mães nervosos como são todos eles e gente de toda espécie.

Certo dia, entra em meu gabinete uma jovem. Não era bela, mas trazia no rosto e no restante do corpo um não sei o quê de uma beleza bastante agradável. Entrou, sentou-se diante de mim e não disse uma só palavra. Passados mais de trinta segundos de silêncio, faltou-me paciência e resolvi falar.
- Minha filha, o que a trouxe aqui?

Ela me olhou mais uma vez, como quem estava me examinando dos pés à cabeça e depois de mais uma pausa resolveu falar.
- Eu quero me inscrever no vestibular, mas não quero preencher esse tal de Questionário Sócio Econômico. (Era um questionário onde se pesquisava a renda familiar, colégio onde tinha fito o primeiro e segundo graus, profissão do candidato quando ele já trabalhava, renda familiar, endereço, etc.)

- Qual a razão, minha filha, de você não querer preencher esse questionário?

Novo silêncio. A moça, aparentado seus 20 anos, deu um longo suspiro e falou:
- Eu acho que posso confiar no senhor. Não quero escrever aí qual é a minha profissão nem colocar meu endereço. Eu sou puta e moro num cabaré. Tudo o que eu quero é deixar essa vida de merda que eu levo, depois que meu pai me botou para fora de casa porque eu perdi a virgindade, mesmo não tendo engravidado. Espero que o senhor guarde segredo dessa nossa conversa. Quero fazer vestibular para Enfermagem.

Ainda meio tonto, depois desse inesperado desabafo, lhe disse:
- Minha filha, pode conta comigo. Sou bom em matéria de segredo. Ninguém vai saber de nossa conversa. Preencha o questionário, coloque aí qualquer profissão e quanto ao endereço, escreva o da COMPERVE. O endereço é para enviar o seu cartão de inscrição e no seu caso será retido aqui e você apanha no momento em que ele deveria ir para sua casa. Minha filha, o primeiro grande passo você já deu, e se chama força de vontade. Você vai vencer essa batalha.

Em seguida, a jovem me agradeceu e saiu feliz da vida. Passados cinco anos, numa sexta-feira, eu acabara de sair da COMPERVE e quando me dirigia para o banco, vi uma jovem trazendo uma criança pela mão se aproximar de mim. Ela fez sinal que queria falar comigo e foi logo dizendo:
- Professor, o senhor está lembrado de mim?

- Para falar a verdade, não estou me lembrando de você.

- Eu sou aquela mulher ... e relembrou seu drama. Fiz o vestibular, passei e conheci um funcionário da Petrobrás que casou comigo, me deu esta filha. Já estou formada, trabalhando num hospital. Agora, ele foi transferido par Aracaju e eu vou trabalhar em um hospital de lá. Vim agradecer, pois devo tudo muito ao senhor.

- Minha filha, você não deve nada a mim, nem sequer sei o seu nome. Você deve tudo à sua força de vontade.

Em seguida, dei um beijo nela e outro na criança e saí com meu coração em festa.




(07 de abril/2007)
CooJornal no 523


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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