
21/04/2007
Ano 10 -
Número 525

ARQUIVO
GERALDO BATISTA |
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Geraldo Batista
São Paulo
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Depois de mais de trinta viagens à capital paulista, pela primeira vez,
vi uma São Paulo preguiçosa, quase parando. Também pudera, era uma
sexta-feira da Paixão. Taxistas cordiais, recepcionistas do hotel mais
ainda, garçons atenciosos além da medida e melhor ainda, gente bonita
passeando sem a menor preocupação. Tudo conspirava para uma viagem
maravilhosa, principalmente depois de mais uma prova de que sou um homem
de muita sorte, a começar pela escolha de minha mulher. Querem a prova?
Selma e Vânia minha cunhada desembarcaram em Congonhas e eu em Cumbica.
Peguei um ônibus da TAM e fui ao encontro delas. Resolvi tomar o café da
manhã e em seguida fui engraxar os sapatos. Ao terminar, verifiquei que
minha mala não estava no carrinho. Então, perguntei ao rapaz que me
atendera:
- Cadê minha mala?
- O senhor chegou aqui sem mala.
Saí correndo para a lanchonete onde havia tomado o café. Perguntei,
esbaforido pela minha mala.
- Deixaram uma mala aqui e um funcionário do aeroporto a levou. Procure
e no setor de perdidos e achados.
Nova carreira. Quando cheguei vi a mala e fui logo dizendo ao simpático
funcionário: Essa mala é minha, Tem uma etiqueta com meu nome. Vou lhe
mostrar minha identidade.
- Precisa, não. O senhor tem cara de gente honesta, pode levar a mala.
Já ouvi muita gente dizer que o paulista é muito chato. Meu filho
Gustavo repete sempre que nunca encontrou um paulista Chat, assim como
eu, Selma e minha cunhada Vânia. Não é possível que nós quatro sejamos
todos mentirosos. Todos os funcionários do hotel nos cativaram.
Procuramos os paulistas chatos e não os encontramos em parte nenhum.
No sábado, iniciamos nossa peregrinação pelos museus, a começar pelo da
Língua Portuguesa, recomendado pelo Dr. Domício Arruda. Muito
interessante e completamente diferente de tudo que é museu no mundo.
No mesmo dia, fomos assistir à peça Fantasma da Ópera, com ingressos
comprados via Internet. Pagamos o preço de platéia e nos mandaram para a
última fila do balcão d onde só se vê os personagens através de
binóculos. Gustavo falou que não havia comprado ingresso para aquele
local. Então, desci e fui reclamar a quem de direito. Um cidadão
simpático me atendeu e me encaminhou para a supervisora que foi logo
dizendo que eu estava com razão e que resolveria meu problema. Em menos
de dois minutos chamou uma recepcionista que nos levou a um camarote
muito bem localizado, de onde assistimos ao maravilhoso espetáculo muito
bem instalados. Quem assistiu, como nós o mesmo espetáculo em Nova
Iorque, pode atestar que o de São Paulo não deixa nada a dever.
Quando fomos ao MASP, encontramos muitos colegiais, assim como em outros
museus. Um grupo de meninas se aproximou de mim para conversar. Uma
delas perguntou s eu era avô.Depois do meu sim, ela disse: “Eu posso lhe
dar um abraço e um beijo? È muito bom abraçar um vovô.”
No mesmo museu, encontrei uma bonita jovem, muito interessada na
exposição de Goya, que resolveu conversar comigo sobre arte. Perguntei
se ela era estudante universitária. Respondeu que era Arquiteta há cinco
anos e já era casada. Conversamos por cerca de quinze minutos. Ela falou
que meu papo era muito interessante. Em seguida, disse que tinha que se
retirar, pois seu marido estava esperando. Para surpresa minha
perguntou: “Posso lhe dar um beijo, pelo prazer de ter lhe conhecido?”
Pode minha filha.
Pois é, foi assim que fui tratado pelas paulistas, logo eu que não passo
de um velho sem nenhum atrativo.
O único senão, foi na hora do embarque da volta. O avião não estava
atrasado, mas os controladores de vôo não estavam de bom humor. Trinta
minutos depois de entrar o último passageiro, perguntei a uma comissária
o que estava acontecendo. Ela disse que não sabia. Dez minutos depois, o
comandante falou que não sabia de nada, pois os controladores não davam
notícias nem atendiam ao seu chamado. Ficamos duas horas e vinte minutos
dentro do avião, esperando pela boa vontade dos senhores sargentos. Esse
fato me fez lembrar uma passagem narrada em meu último livro. Quando
Dióscoro Vale foi promovido a general, esteve em Natal. Perguntado como
se sentia depois da promoção, respondeu: “O que eu queria ser é o que
sargento da Aeronáutica pensa que é.” Pois é, hoje eles mandam mais que
brigadeiro.
(21 de abril/2007)
CooJornal
no 525
Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldo@concursos-rn.com.br
geraldo@talento-rn.com.br
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