26/05/2007
Ano 11 - Número 530


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Samba do crioulo doido

 

Li, em João Pessoa, um artigo em um dos jornais sobre a transformação das quadrilhas juninas. Saiu o folclore e entrou aberração.

O articulista começava o seu artigo com estas palavras: “Olhe para o céu meu amor, veja como ele está lindo, cheio de balões multicores, mas se você olhar para a terra não vai ver mais quadrilha, não.”

É a mais pura verdade, nossas tradicionais quadrilhas foram transformadas em um triste espetáculo para acabar com a nossa tradição secular. Sempre ouvi dizer que para se conquistar um povo não é preciso apenas vencer uma guerra e ocupar o seu território. Enquanto sua cultura for preservada, o povo vai resistir.

O que é que estamos assistindo agora é uma imitação grosseira das escolas de samba (que por sua vez estão deformando o verdadeiro samba para agradar aos turistas). As quadrilhas atualmente têm enredo, fantasia, carnavalesco no lugar do lugar do marcador e algumas já têm até barracão. Em resumo, essa coisa não é nem quadrilha nem escola de samba. Os inocentes noivos das quadrilhas de antigamente viraram Mestre Sala e Porta Bandeira. Stanislaw Ponte Preta diria que é o samba do crioulo doido.

Não sei se em Pernambuco a moda já chegou; no Ceará, no Rio Grande do Norte e na Paraíba só se vê essas obscenidades pseudo-culturais.

Nas vezes em que fui obrigado a assistir a esse ridículo espetáculo fiquei com pena daqueles jovens que foram condenados a representar aquela coisa, sem nunca terem tomado conhecimento de uma verdadeira e bela quadrilha tão gostosa de se dançar.

Se os meus amigos de Santa Catarina viessem ao Nordeste na época junina na tentativa de ver nossas tradições, tomariam um susto quando vissem a marmota que se dança aqui. É melhor eles olharem para o céu, porque o espetáculo aqui na terra é de se chorar de tristeza.

O jornalista Woden Madruga foi o pioneiro na defesa da nossa tradição junina, mas seu alerta não foi ouvido, como se pregasse num deserto. Infelizmente as autoridades patrocinam com o erário público essa coisa que não leva a nada quando deveriam patrocinar as quadrilhas verdadeiras, agora condenadas a morrer por falta de incentivo.

***

Permitam meus leitores que eu mande um recado para Maísa, para Luís Murilo Filho e para Marcos Brito. A partida do meu amigo Murilo Brito pegou a todos nós de surpresa. Logo ele, um homem tranqüilo, magro, sem problemas, haveria de ser operado para colocar pontes safenas? Seu perfil de um eterno namorado da esposa e dedicado aos filhos e netos era para quem viveria mais de noventa anos. Sempre que se encontrava comigo deixava transparecer uma alegria de quem vivia de bem com a vida.

Conheci Murilo ainda muito jovem estudando no Ginásio Diocesano de Caicó, vizinho ao Seminário onde eu estudava. Ele era um dos estudantes do Ginásio, que nas ocasiões especiais cantava no coro da igreja junto com os seminaristas. Parece que estou ouvindo sua voz cantando em latim no mais puro canto chão: “Esultet jam Angélica turba caelorum...”

Quero dizer à Maísa que não encontrei nenhuma palavra no dicionário que pudesse lhe dizer para minorar sua dor. Não tenho, infelizmente a receita mágica para preparar um ungüento para sarar as feridas da alma. Resta o consolo de saber que ele soube honrar o lar que lhe foi confiado, fazendo o dever de casa de tal modo que pôde se apresentar ao Pai como a tranqüilidade dos justos.




(26 de maio/2007)
CooJornal no 530


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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