Li, em João Pessoa, um artigo em um dos jornais sobre a transformação
das quadrilhas juninas. Saiu o folclore e entrou aberração.
O articulista começava o seu artigo com estas palavras: “Olhe para o céu
meu amor, veja como ele está lindo, cheio de balões multicores, mas se
você olhar para a terra não vai ver mais quadrilha, não.”
É a mais pura verdade, nossas tradicionais quadrilhas foram
transformadas em um triste espetáculo para acabar com a nossa tradição
secular. Sempre ouvi dizer que para se conquistar um povo não é preciso
apenas vencer uma guerra e ocupar o seu território. Enquanto sua cultura
for preservada, o povo vai resistir.
O que é que estamos assistindo agora é uma imitação grosseira das
escolas de samba (que por sua vez estão deformando o verdadeiro samba
para agradar aos turistas). As quadrilhas atualmente têm enredo,
fantasia, carnavalesco no lugar do lugar do marcador e algumas já têm
até barracão. Em resumo, essa coisa não é nem quadrilha nem escola de
samba. Os inocentes noivos das quadrilhas de antigamente viraram Mestre
Sala e Porta Bandeira. Stanislaw Ponte Preta diria que é o samba do
crioulo doido.
Não sei se em Pernambuco a moda já chegou; no Ceará, no Rio Grande do
Norte e na Paraíba só se vê essas obscenidades pseudo-culturais.
Nas vezes em que fui obrigado a assistir a esse ridículo espetáculo
fiquei com pena daqueles jovens que foram condenados a representar
aquela coisa, sem nunca terem tomado conhecimento de uma verdadeira e
bela quadrilha tão gostosa de se dançar.
Se os meus amigos de Santa Catarina viessem ao Nordeste na época junina
na tentativa de ver nossas tradições, tomariam um susto quando vissem a
marmota que se dança aqui. É melhor eles olharem para o céu, porque o
espetáculo aqui na terra é de se chorar de tristeza.
O jornalista Woden Madruga foi o pioneiro na defesa da nossa tradição
junina, mas seu alerta não foi ouvido, como se pregasse num deserto.
Infelizmente as autoridades patrocinam com o erário público essa coisa
que não leva a nada quando deveriam patrocinar as quadrilhas
verdadeiras, agora condenadas a morrer por falta de incentivo.
***
Permitam meus leitores que eu mande um recado para Maísa, para Luís
Murilo Filho e para Marcos Brito. A partida do meu amigo Murilo Brito
pegou a todos nós de surpresa. Logo ele, um homem tranqüilo, magro, sem
problemas, haveria de ser operado para colocar pontes safenas? Seu
perfil de um eterno namorado da esposa e dedicado aos filhos e netos era
para quem viveria mais de noventa anos. Sempre que se encontrava comigo
deixava transparecer uma alegria de quem vivia de bem com a vida.
Conheci Murilo ainda muito jovem estudando no Ginásio Diocesano de Caicó,
vizinho ao Seminário onde eu estudava. Ele era um dos estudantes do
Ginásio, que nas ocasiões especiais cantava no coro da igreja junto com
os seminaristas. Parece que estou ouvindo sua voz cantando em latim no
mais puro canto chão: “Esultet jam Angélica turba caelorum...”
Quero dizer à Maísa que não encontrei nenhuma palavra no dicionário que
pudesse lhe dizer para minorar sua dor. Não tenho, infelizmente a
receita mágica para preparar um ungüento para sarar as feridas da alma.
Resta o consolo de saber que ele soube honrar o lar que lhe foi confiado,
fazendo o dever de casa de tal modo que pôde se apresentar ao Pai como a
tranqüilidade dos justos.
(26 de maio/2007)
CooJornal
no 530