18/08/2007
Ano 11 - Número 542


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista



A Festa de Agosto
 

 

No dia 11 de agosto, logo cedo fui para minha cidade, Acari, para a Festa.

Nenhum acariense fica indiferente à magia da Festa de Agosto, Festa de Nossa Senhora da Guia, Festa da Padroeira ou simplesmente, a Festa. Se alguém perguntar a um filho da terra, por mais distante que ele esteja: Você vai à Festa? Todo mundo sabe que se trata da Festa de Agosto, sua mais característica nomenclatura.

A cidade começa a se preparar logo após o São João. A tradição manda que todas as casas sejam pintadas. As casas devem estar limpas para a passagem da Santa pelas ruas. Todo esforço é válido para manter o aspecto responsável pela fama de “A cidade mais limpa do Brasil”. Os mais pobres se valem do serviço de um “Mestre lambuza”, tradição herdada desde o tempo de João Sampaio, um famoso caiador de casas, assim apelidado.

Rico ou pobre, todos dão um jeito de fazer uma roupa nova para a Festa. Quem pode, compra também um par de sapatos, nem que seja dos mais baratos que fazem calo na primeira subida da ladeira da Rua da Matriz.

A Festa dura 9 dias ou melhor, nove noites de novena. A redundância se deve ao fato de o povo chamar de novena cada um dos atos que se repete todas as noites durante a Festa.
- “Maria você vai à novena de hoje?”
- “Ôxente! E desde quando eu perco uma só novena”

Depois da solenidade, começa a queima das girândolas de foguetões e de fogos de artifício. Hoje, já se queima fogos importados da China. É a tal da globalização interferindo na tradição dos velhos fogueteiros que já não podem concorrer com as fábricas chinesas que, além de uma tecnologia mais avançada, empregam mão-de-obra semi-escrava.

Já se foi o tempo das barracas Azul e Encarnada, organizadas pelas moças da sociedade. A rivalidade entre o Azul e o Encarnado dava até intriga.
-“Terezinha falou que o Encarnado vai ganhar.”
- “Duvi-d-ó-dó. É mais fácil Maria de Miguel Viana pronunciar um apelido do que o Azul perder.” (Maria de Miguel Viana nunca pronunciou um apelido. Não abria exceção nem para o Papa Pio XII, a quem só chamava de Papa Eugênio Pacceli).

As barracas de hoje são terceirizadas, perderam aquele romantismo de antigamente, viraram um mero comércio como outro qualquer. O pior de tudo é ter que aturar as bandas de forró jogando nos nossos ouvidos centenas de decibéis de uma música de baixíssima qualidade.

Outro ponto alto da Festa é a Banda de Música. O fascínio pela Banda de Música sempre foi tão forte que chega a ser difícil de definir. Festa que se preza tem que ter banda de música e muito foguetão. A Banda de Música de Acari, hoje, está muito mais bonita, enfeitada por várias meninas que lhe dão um toque todo especial.

No dia 15, a procissão de Nossa Senhora da Guia arrasta uma verdadeira multidão. Ônibus e caminhões trazem gente de todo o Seridó. A procissão, vista do alto, parece um rio de gente de todas as cores, estratos sociais, misturada e unida na mesma fé. Em ano de eleição, o andor não chega para os políticos que vêm de fora, travestidos de devotos para enganar os bestas.

Quando a imagem passa em frente ao sobrado de José Evaristo, uma girândola de centenas de foguetões sobe ao céu, num espetáculo que ano após ano sempre nos emocionou. Felizmente, Getúlio Nóbrega e seus irmãos não deixaram a tradição morrer. A procissão, além da demonstração de fé, tem seu lado melancólico. É o sinal de que a Festa está chegando ao seu final e a pequena cidade, no dia seguinte amanhece mais triste. São os parentes que partem, o namorado que nunca mais dará notícias e lembranças que nem o tempo conseguirá apagar. E no próximo ano, Nossa Senhora da Guia trará novamente seus filhos de todo o Brasil numa demonstração de que seu amor é maior do que a distância.



(18 de agosto/2007)
CooJornal no 542


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
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