
06/10/2007
Ano 11 -
Número 549

ARQUIVO
GERALDO BATISTA |
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Geraldo Batista
Acari, meu lugar
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Meu lugar é uma cidadezinha pequena, sem indústrias, habitada por gente
pobre, humilde e ordeira como eu. Mas, o meu povo não confunde pobreza
com sujeira. Ouvi isso inúmeras vezes de minha mãe. “Meu filho, a gente
é pobre, mas tem que ser limpo.” Em Acari, isso é regra não é exceção.
O município de Acari foi criado em 11 de abril de 1835, por resolução do
conselho de Governo. Neste mesmo ano, ainda na época do império, já
dizia o “Código de Postura da Intendência Municipal da cidade de Acary”
cujo autor é desconhecido, “Em toda a cabeça de casal será obrigado
a ter limpado as frentes de suas casas nas povoações, nas quatro festas,
principalmente de cada um ano, sob pena de pagar por cada vez que faltar
a limpeza, duzentos réis para as despesas da Câmara”. As pessoas
eram obrigadas a manter a limpeza na cidade. Assim a legislação no
Império e na Velha República previa que todos os habitantes mantivessem
suas casas e ruas bem conservadas.
A tradição chegou até nossos dias e assim, a população de Acari se
orgulha há muito tempo com título de “Cidade mais limpa do Brasil”. E é
verdade, em minha cidade não se jogam, na rua, copos descartáveis,
garrafas vazias, latas de cerveja e de refrigerantes, papel, lixo de
nenhuma espécie. O lixo de Acari tem destino certo.
Todos os dias, quando me desloco para o Bosque dos Namorados onde faço
minha caminhada e dou uma corridinha, encontro no caminho centenas de
copos descartáveis, latas, garrafas, etc. A distância que separa o
Bosque de meu apartamento não chega a quinhentos metros e já cheguei a
contar mais cem copos jogados na rua, para servir de criadouro no
mosquito Aedes aegypti. O pior de tudo é que os homens da limpeza
pública arrancam, todos os meses, as chananas, uma florzinha linda,
símbolo da cidade, protegida por lei e, em seu lugar deixam o lixo. Esta
florzinha nasce espontaneamente, não carece de nenhum cuidado para nos
brindar diariamente com suas inúmeras flores. Isso acontece na capital
do Estado onde se esperava que houvesse uma população mais bem
informada. Tudo indica que civilização ainda não chegou por aqui. O
homem civilizado gosta de flores e detesta sujeira.
Agora, o meu lugar tem outro motivo para se orgulhar, em um Estado onde o
ensino é o pior do Brasil, uma escola pública de Acari mereceu o título
de melhor gestão escolar e de melhor ensino, mesmo sendo uma escola
pública de um município pobre. Em meu lugar, as professoras ensinam de
verdade e os alunos aprendem de fato. Os seus habitantes não falam: “Pra
mim fazer, vou de quatro horas e outros tantos vícios de linguagem”. Os
alunos de minha terra aprendem a ler e a escrever, prova disso é que uma
aluna de Acari recebeu um prêmio nacional pelo primeiro lugar em um
concurso de redação entre alunos de escolas públicas.
A Maternidade do meu lugar funciona muito bem, mesmo não recebendo ajuda
do Estado, e talvez por isso mesmo. Todas as despesas são pagas pela
Prefeitura. Tudo isso acontece pela simples razão de que os prefeitos de
minha terra não foram, ainda, contaminados com terrível vírus
“Falcatruae brasiliensis” que já infectou quase todo o território
nacional.
P.S. Como já escrevi
inúmeras vezes em defesa das chananas, muita gente pensa que sou o
pioneiro nesse amor e nessa luta pelas chananas. Não é verdade, o
verdadeiro pioneiro é o Engenheiro Volban Faria. Quando ele foi prefeito
de Natal, mandou limpar os canteiros da Av. Hermes da Fonseca e
determinou que fossem plantadas chananas ao longo da avenida. Ele tinha
o costume de sair todos os dias de manhã cedo, no seu próprio carro,
gastando combustível do seu bolso, para fiscalizar as obras da
Prefeitura. Passando pela Hermes da Fonseca, estavam plantando as
chananas e ele perguntou a um dos operários o que eles estavam fazendo.
O rapaz respondeu: “Isso é coisa do filho da p... do prefeito, que não
tendo o que fazer e inventou de mandar plantar essa tal de chanana só
para dar trabalho à gente.” O prefeito se limitou a rir e continuou seu
caminho.
(06 de outubro/2007)
CooJornal
no 549
Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br
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