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Geraldo Batista
Suburbana...
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Na década de setenta, estava eu vagando despreocupado pelas ruas do Rio
de Janeiro, quando cruzei, por acaso, na porta de uma Faculdade de
Educação Física, com uma jovem carregando uns livros. Mais adiante,
entrou numa fila para pegar um ônibus. Curioso, como sempre, vi que ela
pegou um ônibus para Bangu.
Fiquei matutando, no sacrifício que aquela jovem fazia para sair daquele
distante subúrbio para assistir aula. Pelas suas modestas roupas,
concluí que se tratava de uma menina de família humilde. Na minha
cabeça, fiquei imaginando o tamanho do esforço dela e dos seus pais para
poder estudar. Será que ela trabalha à noite? Se fosse atualmente, eu
poderia até ter colocado minhoca na cabeça e achar que ela fazia, como
tantas outras, “programa” para pagar a Faculdade. Infelizmente, hoje é
uma triste realidade em todas as cidades grandes. Jovens universitárias
de cursos superiores particulares, todos muito caros, viram, nas horas
de folga, meninas de programa. Já existe até “sites” onde elas oferecem
o serviço, com tabela de preço.
Voltemos à minha suburbana. Não era nem feia nem muito bonita. Um tipo
comum. Seus olhos irradiavam um não sei o que de simpatia e meiguice.
Ela nem notou que eu a observava por pura curiosidade. Imaginei um
bocado de coisas, inclusive que ela poderia ser dama de companhia
noturna de uma idosa ou até mesmo de um casal. Ou, quem sabe, ficar
tomando conta de crianças, enquanto os pais saíam à noite. Trabalharia
ela em uma lanchonete ou em um restaurante? Foram tantas as opções que
passaram pela minha desocupada cabeça que eu a imaginei até sendo
cobradora noturna de ônibus.
Muitos anos depois, assistindo um programa de televisão chamado “Censura
Livre”, acompanhei uma entrevista com uma professora de Educação Física
de Bangu. Não, não vou inventar que reconheci, naquela professora, a
jovem suburbana que vi saindo da Faculdade, pegando um ônibus para
aquele distante bairro carioca. Mas, confesso que na minha cabeça fiquei
convencido que era ela mesma, a entrevistada. Será?
A jovem falava com muita desenvoltura, descrevendo seu trabalho que
começara convidando os vizinhos para caminhar em sua companhia. Aos
poucos o número foi aumentando até chegar a cerca de 200 pessoas. A
Secretaria de Educação tirou-a da sala de aula e deixou que ela
desenvolvesse um trabalho de Educação Física para aquela comunidade,
colocando à sua disposição um médico e algumas fisioterapeutas. Aos
domingos, graças à ajuda de alguns empresários, levava a turma para as
Paineiras, todos com boné e camiseta. A última pergunta que a
entrevistadora fez foi a seguinte:
- Nessa sua comunidade de 200 pessoas há idosos?
A jovem resolveu dar um choque de 300 volts na imbecilidade de alguns e
respondeu:
- Eu não trabalho com velhos. Só trabalho com jovens, muitos de 80 anos,
inúmeros de 70, a maioria de 60 anos, todos jovens com muita alegria de
viver e muita lição de vida para nos dar.
Por coincidência, minha mulher, àquela época com cinqüenta anos, foi se
matricular em uma aula de natação e foi rejeitada como aluna, por ser
idosa. Logo ela, que ainda hoje caminha e faz ginástica, aos 65 anos,
aparentando muito menos.
A partir de então, durante minhas caminhadas, só trato a todos assim:
Bom dia minha jovem! Bom dia meu jovem! Todos me chamam de meu garoto e
eu acho ótimo.
(17 de novembro/2007)
CooJornal
no 555