01/12/2007
Ano 11 - Número 557


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista


 

Respondendo a Zé das Cuias

 


No dia 29 de novembro, começará mais uma edição do carnaval fora de época de Natal, o Carnatal. Estou escrevendo este texto no dia 24/11.

Ao sair de uma quitanda (hoje chamam mercadinho), uma leitora pediu notícias de Zé das Cuias reclamando que ele anda muito calado. Disse a ela que ele havia aparecido e hoje escrevera novamente, cheio de perguntas, às quais passo a responder.

- Seu moço, você já calculou quanto o erário gasta com o Carnatal, somente com o pagamento de horas extras aos dois mil policiais postos à disposição da festa da Destaque? (A Destaque é uma empresa privada que organiza a festa.)

Sei não, Zé, mas deve ser uma nota preta, fora o que gasta com os Amarelinhos. (guardas de trânsito, assim chamados pela cor do fardamento). Enquanto isso, um dos nossos jornais publica hoje que o serviço de Pediatria do principal hospital da cidade foi fechado por falta de verba.

Seu moço, o que você acha dessa poluição sonora dos trios elétricos baianos que inferniza a vida de quem mora e trabalha nas proximidades do corredor da folia?

Um absurdo, Zé. Essa festa deveria se transferir para a Via Costeira onde estão os turistas interessados na mesmice de sempre. Mas, dona Iracy Azevedo, coordenadora Geral do Carnatal, precisa urgentemente fazer uma consulta ao Centro Auditivo Telex, pois teve a coragem de declarar que; “Fizemos um estudo de impacto ambiental e concluímos que a intensidade do trio equivale à intensidade do fluxo de carros nos períodos normais.” Ou dona Iracy é surda ou está pensando que nós somos imbecis.

- Vocês que trabalham na área se sentem incomodados com o fato de não poderem trabalhar no horário normal e ainda mais sentindo o cheiro de urina?

Nem fale, nisso, Zé. Temos que trabalhar no dia seguinte sentindo um insuportável cheiro de urina. No JH Primeira Edição publicou no ano passado, a seguinte manchete: “Foliões tiveram que driblar a lagoa formada por urina.”, com direito a foto colorida. No portão da minha empresa havia uma poça de urina. Será que dona Iracy Azevedo vai ter coragem de dizer que nossas ruas fedem a urina durante o resto do ano? Ou ela confunde cheiro de urina com perfume francês?

Vou transcrever alguns trechos que andei lendo nos jornais sobre o “Desrespeito à cidadania”, como escreveu João Batista Machado. “Durante quatro dias, à semelhança dos nazistas que confinavam os judeus em “guetos” permitindo apenas circulação numa área restrita, os promotores do “carnatal” procedem da mesma maneira em Lagoa Nova. O bairro transforma-se em parque de lazer para a Destaque vender “alegria por metro quadrado’, à revelia do sossego dos seus habitantes.”

Sanderson Negreiros foi igualmente feliz quando grafou: “...nestes dias de trevas com que o carnatal onubila esta cidade de Natal, cuja programação oficiosa teve a sensibilidade cristã de incluir este festim de final de Império Romano no ciclo das Festas do Natal.”

O Dr. Iaperi Araújo escreveu carta para o jornal falando entre outras coisas das “mulheres que apalpavam ostensivamente os penduricalhos dos gringos...”

Um promotor de justiça me disse que se a Secretaria de Defesa Social colocasse um terço do aparato que ela põe à disposição da Destaque, Natal seria uma ilha de tranqüilidade e não precisava dos semáforos que a Destaque manda retirar, era só botar os Amarelinhos nas ruas como faz durante o Carnatal.

O padre Matias Soares escreveu esta semana: “As pessoas estão sendo massificadas pelas leis do mercado e das grandes indústrias da festa. (As bandas baianas que faturam uma fortuna às custas dos bestas.) O Carnatal é Festa do Macacos onde se pula sem saber o porquê.”

Zé, o Carnatal é isso. O resto é conversa de cronista social ou de jornalista puxa-saco dos ricos e das autoridades.



(01 de dezembro/2007)
CooJornal no 557


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br