08/12/2007
Ano 11 - Número 558


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Parece que foi ontem

 


Gosto muito de meditar ao pôr do sol. Parece que o final do dia nos cobra uma espécie de prestação de contas do que deveria ter se feito e se o que fez foi agradável à nossa consciência. Sim, porque aos tementes à Deus, a consciência ainda é o melhor parâmetro.

Há poucos dias, olhando o sol se esconder no horizonte, fiquei pensando e repassando minha vida e fazendo as contas dos anos que ainda me podem restar. Sim, porque já me convenci que estou ficando velho (felizmente, nem rabugento, nem cansado). Cheguei à conclusão de que ser velho tem algumas vantagens: a neta e o neto (as maiores de todas), a experiência, as filas menores, o direito de só fazer o que gosta, etc. As desvantagens não precisam ser enumeradas, todos as conhecem de sobra e quem não quiser provar delas, trate de morrer cedo.

E as melhores lembranças? As do tempo de moleque, dos banhos de rio, no Poço do Felipe, nos açudes de água barrenta das primeiras chuvas. As peladas nos campos de cheios de pedra, abrindo feridas nos pés descalços. Os banhos de chuva, ouvindo o ribombar dos trovões nas serras do Acari. Será que ainda se ouvem trovões como os de antigamente? Será que até isso a modernidade acabou? Qualquer dia de inverno vou até o meu Acari conferir.

Naquele final do dia, fiz um passeio por toda minha infância: o Grupo Escolar, os colegas mais afortunados (principalmente os filhos da Profª. Iracema Brandão e da Profª. Mirtes Bezerra) que me tratavam como se eu fosse um deles, os “bestas” que pensavam que eram ricos e olhavam para mim de cima para baixo e hoje estão condenados a me olharem de baixo para cima. Nada como um dia atrás de outro... Continuo pobre, mas sempre de cabeça erguida, dizia eu nos meus pensamentos.

Continuei meu passeio, chegando à adolescência, e “conversando” com os primeiros amores, alguns mais ficção do que realidade. Querem saber? Os professores do Seminário de Caicó eram quase todos Lazaristas holandeses. Recebiam jornais e revistas muito bem impressos. Infalivelmente, traziam fotos da família real. Resolvi me apaixonar pela segunda filha da Rainha. Resultado, fiquei em segunda época, em Latim, de tanto pensar na donzela.

Mas, havia as paixões de verdade, embora platônicas. Nevinha, uma menina-moça que trabalhava com as freiras, me roubou muitas noites de sono. Na cabeça daquele adolescente ela era linda como uma princesa. Aqueles seus seios pedindo mais tecido em suas blusas apertadas, seu jeito meigo de olhar para mim, um simples aceno com a cabeça me deixavam em estado de graça. Na missa dominical, ficava de propósito bem em frente, virada para meu lado. A missa passava rápido. Ficava de olho grudado naquela menina que fingia rezar.

O sol acabara de se pôr e fiquei me perguntando: onde andará Nevinha? Teria casado e se enchido de filhos? Já seria avó?

Começou a ficar escuro e eu “acordei”. Parece que foi ontem. Restou-me um consolo e a certeza maior. A minha última e verdadeira paixão já ultrapassou a barreira dos 40 anos de convivência, continua ótima e se multiplicou por quatro.

Peço licença para dedicar este texto a Rosa Pena, a musa que me inspirou a escrevê-lo.




(08 de dezembro/2007)
CooJornal no 558
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br