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Geraldo Batista
Parece que foi ontem |
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Gosto muito de meditar ao pôr do sol. Parece que o final do dia nos
cobra uma espécie de prestação de contas do que deveria ter se feito e
se o que fez foi agradável à nossa consciência. Sim, porque aos tementes
à Deus, a consciência ainda é o melhor parâmetro.
Há poucos dias, olhando o sol se esconder no horizonte, fiquei pensando
e repassando minha vida e fazendo as contas dos anos que ainda me podem
restar. Sim, porque já me convenci que estou ficando velho (felizmente,
nem rabugento, nem cansado). Cheguei à conclusão de que ser velho tem
algumas vantagens: a neta e o neto (as maiores de todas), a experiência,
as filas menores, o direito de só fazer o que gosta, etc. As
desvantagens não precisam ser enumeradas, todos as conhecem de sobra e
quem não quiser provar delas, trate de morrer cedo.
E as melhores lembranças? As do tempo de moleque, dos banhos de rio, no
Poço do Felipe, nos açudes de água barrenta das primeiras chuvas. As
peladas nos campos de cheios de pedra, abrindo feridas nos pés
descalços. Os banhos de chuva, ouvindo o ribombar dos trovões nas serras
do Acari. Será que ainda se ouvem trovões como os de antigamente? Será
que até isso a modernidade acabou? Qualquer dia de inverno vou até o meu
Acari conferir.
Naquele final do dia, fiz um passeio por toda minha infância: o Grupo
Escolar, os colegas mais afortunados (principalmente os filhos da Profª.
Iracema Brandão e da Profª. Mirtes Bezerra) que me tratavam como se eu
fosse um deles, os “bestas” que pensavam que eram ricos e olhavam para
mim de cima para baixo e hoje estão condenados a me olharem de baixo
para cima. Nada como um dia atrás de outro... Continuo pobre, mas sempre
de cabeça erguida, dizia eu nos meus pensamentos.
Continuei meu passeio, chegando à adolescência, e “conversando” com os
primeiros amores, alguns mais ficção do que realidade. Querem saber? Os
professores do Seminário de Caicó eram quase todos Lazaristas
holandeses. Recebiam jornais e revistas muito bem impressos.
Infalivelmente, traziam fotos da família real. Resolvi me apaixonar pela
segunda filha da Rainha. Resultado, fiquei em segunda época, em Latim,
de tanto pensar na donzela.
Mas, havia as paixões de verdade, embora platônicas. Nevinha, uma
menina-moça que trabalhava com as freiras, me roubou muitas noites de
sono. Na cabeça daquele adolescente ela era linda como uma princesa.
Aqueles seus seios pedindo mais tecido em suas blusas apertadas, seu
jeito meigo de olhar para mim, um simples aceno com a cabeça me deixavam
em estado de graça. Na missa dominical, ficava de propósito bem em
frente, virada para meu lado. A missa passava rápido. Ficava de olho
grudado naquela menina que fingia rezar.
O sol acabara de se pôr e fiquei me perguntando: onde andará Nevinha?
Teria casado e se enchido de filhos? Já seria avó?
Começou a ficar escuro e eu “acordei”. Parece que foi ontem. Restou-me
um consolo e a certeza maior. A minha última e verdadeira paixão já
ultrapassou a barreira dos 40 anos de convivência, continua ótima e se
multiplicou por quatro.
Peço licença para dedicar este texto a Rosa Pena, a musa que me inspirou
a escrevê-lo.
(08 de dezembro/2007)
CooJornal
no 558