
15/12/2007
Ano 11 -
Número 559

ARQUIVO
GERALDO BATISTA |
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Geraldo Batista
ponte do pina |
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Morei, durante o ano de 1965, em Recife. Um ano foi bastante
para me apaixonar pela cidade. Não sei a razão de a Ponte do Pina ter
exercido sobre mim um fascínio especial.. Todos os dias eu a cruzava
pela manhã e no final da tarde. Na ida, eu avistava uma bela paisagem do
bairro de Recife Antigo, com seu charme vetusto que o pernambucano soube
preservar. Na volta, juntamente com cheiro da maresia eu avistava o
bairro do Pina, cujo restaurante mais famoso, o Maxim's freqüentado pela
boemia, resistia ao tempo desde a Segunda Guerra Mundial, servindo um
peixe simples de um sabor inigualável. Depois chegava Boa Viagem, com um
charme todo especial metido a Copacabana nordestina. O bairro tinha e
continua tendo vida própria, como se nem sequer precisasse de Recife.
Bons restaurantes, padarias decentes, bares e barzinhos aconchegantes e
muitas prostitutas sempre dispostas a acompanhar quem precisasse de seus
“favores”. Boa Viagem ainda tinha entregador de leite naquelas garrafas
de vidro da boca larga que a gente deixava na porta para o leiteiro
levar a vazia e deixar a cheia. E pasmem meus caros leitores, ninguém
roubava nem o leite nem o jornal que ficava dobrado debaixo da garrafa.
Naquele tempo o leite tinha apenas gosto de leite, sem soda cáustica nem
água oxigenada.
Eu queria mesmo era falar sobre a Ponte do Pina. Minha paixão pela ponte
foi como amor à primeira vista. Parecia que ao olhar para ela, havia
sido recebido de braços abertos, como se ponte tivesse braços. De vez em
quando, uns vândalos quebravam algumas de suas bonitas luminárias. Eu
ficava revoltado. Cheguei até a pensar em criar uma milícia voluntária
para vigiar a ponte. Na cabeça daquele jovem sonhador, eu imaginava
conseguir 365 voluntários. Assim, bastava que uma vez por ano, um
voluntário desse plantão para preservar suas luminárias. Como eu não
conhecia muita gente na cidade, meu sonho ficou só na boa intenção. A
ponte não era apenas a porta de entrada para Boa Viagem, passando por
ela se chegava à Piedade, à Candeias, a Gaibu que era um
verdadeiro Paraíso, por sinal, nome de uma outra praia. Se as areias de
Gaibu falassem teriam muitas histórias para contar a meu respeito...
Recife
Antigo tinha seus encantos. Eu gostava de freqüentar um restaurante,
cujo nome esqueci. Lá do alto, se avistavam os telhados que inspiraram
muitos poetas e pintores. Outro restaurante de minha predileção era o
Galo d'Ouro, na Rua Camboa do Carmo, com suas louças e quadros com
paisagens de Portugal e suas generosas postas do bacalhau me fazem
voltar, sempre que posso, ao Bairro de Santo Antônio para matar a fome e
a saudade. Havia ainda o bar Savoy, quartel-general de boêmios.
Impossível não resistir ao seu chope acompanhado da famosa salada de
bacalhau, com batata e verduras. O bar é um dos mais antigos da cidade,
chama atenção por duas relíquias: versos originais do poeta Carlos Pena
Filho pendurados em molduras nas paredes e um painel todo de azulejos
pintados à mão, pelo artista plástico Corbiniano. O velho Savoy ainda
hoje resiste ao tempo. O poeta Carlos Pena Filho faleceu aos 31 anos,
vítima de um acidente automobilístico, em 1º de julho de 1960, em
Recife.
Sempre que volto a Recife me imagino cantando: “Voltei Recife, foi a
saudade que me trouxe pelo braço...”
Fiquem
agora com versos de Carlos Pena Filho:
“Madame, em vosso claro olhar, e
leve,/navegam coloridas geografias,/azul de litoral, paredes
frias,/vontade de fazer o que não deve/ser feito, por ser coisa de
outros dias...”
(15 de dezembro/2007)
CooJornal
no 559
Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br
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