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Geraldo Batista
Os três Reis Magos |
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Todos os anos, na cidade de
Natal, a prefeitura patrocina um Auto do Natal, cujo texto é de um autor
da terra. Anualmente, eu assisto ao espetáculo e há muito, venho me
queixando de que traziam gente de fora, tanto para dirigir como para
representar os principais papéis, inclusive cantar parte do texto. Era
como se nossos artistas e diretores de teatro não fossem capazes de
apresentar o Auto do Natal da cidade de Natal. Não tenho nada contra
atores e atrizes de outras paragens, até porque arte não tem fronteiras.
Minha luta era para valorizar o artista da terra.
Finalmente, no final do ano passado, o Auto, além de apresentar um
excelente texto, assinado por Nei Leandro de Castro, foi representado
por artistas locais. Apenas a direção foi importada do Rio de Janeiro,
mas o seu diretor, Moacyr de Gois é norte-rio-grandense.
Este ano, a FUNCARTE, talvez, mesmo sem ter tomado conhecimento do meu
pleito, atendeu plenamente ao meu pedido por tanto tempo esperado. O seu
diretor, Dácio Galvão, acertou em cheio ao convidar os três Reis Magos:
Paulo de Tarso, Véscio Lisboa e Carlos Zens. O primeiro escreveu um belo
texto tipicamente nordestino, de um formato bem popular. O segundo
dirigiu o espetáculo, alegre, solto, sem sobressaltos. O terceiro se
encarregou de compor a música e da direção musical e ainda por cima nos
brindou com uma interpretação bem adaptada ao espetáculo. Esse três
reis, gente da terra da gente, nos presentearam com uma festa belíssima
sem precisar das atrizes chamadas globais que nem sempre gostam de
mostrar suas caras por aqui, embora mostrem sem pudor, seus seios, seus
traseiros e outras partes menos púdicas.
O diretor, Véscio Lisboa, teve o bendito “atrevimento” de inserir no
elenco, portadores de necessidades especiais. Ficou provado que o
deficiente é capaz de se superar e de nos oferecer momentos de muita
emoção ditada pela força de vontade, transformando sua participação num
momento mágico que só a arte cênica pode proporcionar.
Como um todo, o espetáculo foi uma festa de alegria, encerrando com um
verdadeiro musical tão nosso que até dava para sentir o “cheiro de
chuva” molhando a terra esturricada depois de meses de estiagem. O Auto
teve de tudo: Teve feira de mangalhos, de frutas, de tapioca, de peixe e
de cuscuz. Teve renda de Alcaçuz. Teve aboio de vaqueiro e nascimento de
Jesus.
O Auto começou com uma cantoria de um cego tocando viola de fitas, como
manda tradição:
“Natal era um vale branco
Entre coqueiros guardado
Em tempo risonho e franco
De cadeiras na calçada.
Aqui viviam Marias
Crescendo em idade e graça
Em seus vestidos de chita
Puras como gotas d´água.
Um delas tinha um noivo
Que Seo José se chamava,
Homem correto, maduro,
De fios brancos na barba.
(29 de dezembro/2007)
CooJornal
no 561