29/12/2007
Ano 11 - Número 561


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Os três Reis Magos

 

 

Todos os anos, na cidade de Natal, a prefeitura patrocina um Auto do Natal, cujo texto é de um autor da terra. Anualmente, eu assisto ao espetáculo e há muito, venho me queixando de que traziam gente de fora, tanto para dirigir como para representar os principais papéis, inclusive cantar parte do texto. Era como se nossos artistas e diretores de teatro não fossem capazes de apresentar o Auto do Natal da cidade de Natal. Não tenho nada contra atores e atrizes de outras paragens, até porque arte não tem fronteiras. Minha luta era para valorizar o artista da terra.

Finalmente, no final do ano passado, o Auto, além de apresentar um excelente texto, assinado por Nei Leandro de Castro, foi representado por artistas locais. Apenas a direção foi importada do Rio de Janeiro, mas o seu diretor, Moacyr de Gois é norte-rio-grandense.

Este ano, a FUNCARTE, talvez, mesmo sem ter tomado conhecimento do meu pleito, atendeu plenamente ao meu pedido por tanto tempo esperado. O seu diretor, Dácio Galvão, acertou em cheio ao convidar os três Reis Magos: Paulo de Tarso, Véscio Lisboa e Carlos Zens. O primeiro escreveu um belo texto tipicamente nordestino, de um formato bem popular. O segundo dirigiu o espetáculo, alegre, solto, sem sobressaltos. O terceiro se encarregou de compor a música e da direção musical e ainda por cima nos brindou com uma interpretação bem adaptada ao espetáculo. Esse três reis, gente da terra da gente, nos presentearam com uma festa belíssima sem precisar das atrizes chamadas globais que nem sempre gostam de mostrar suas caras por aqui, embora mostrem sem pudor, seus seios, seus traseiros e outras partes menos púdicas.

O diretor, Véscio Lisboa, teve o bendito “atrevimento” de inserir no elenco, portadores de necessidades especiais. Ficou provado que o deficiente é capaz de se superar e de nos oferecer momentos de muita emoção ditada pela força de vontade, transformando sua participação num momento mágico que só a arte cênica pode proporcionar.

Como um todo, o espetáculo foi uma festa de alegria, encerrando com um verdadeiro musical tão nosso que até dava para sentir o “cheiro de chuva” molhando a terra esturricada depois de meses de estiagem. O Auto teve de tudo: Teve feira de mangalhos, de frutas, de tapioca, de peixe e de cuscuz. Teve renda de Alcaçuz. Teve aboio de vaqueiro e nascimento de Jesus.

O Auto começou com uma cantoria de um cego tocando viola de fitas, como manda tradição:


“Natal era um vale branco
Entre coqueiros guardado
Em tempo risonho e franco
De cadeiras na calçada.

Aqui viviam Marias
Crescendo em idade e graça
Em seus vestidos de chita
Puras como gotas d´água.

Um delas tinha um noivo
Que Seo José se chamava,
Homem correto, maduro,
De fios brancos na barba.
 




(29 de dezembro/2007)
CooJornal no 561
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br