09/02/2008
Ano 11 - Número 567


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Olímpio

 

 

Olímpio Paulino das Neves foi outra figura muito popular, fazia parte do cenário da minha cidade. Não sabia a idade, mas o cartório registrava que nascera 1907. Morreu aos 79 anos. Levou quase toda a vida de biscates. Como todo pobre nordestino, aparentava mais idade do que a real. Ingênuo, foi muito explorado. Tinha a disposição de um animal de carga. Topava qualquer serviço.

- Olímpio, quero que você vá esgotar a fossa lá de casa.

- Tem cana? Então, eu vou.

Fazia mudanças, levando tudo nas costas. Pena que ninguém tenha feito uma foto sua, carregando uma mesa enorme emborcada, com as cadeiras enfiadas nas pernas, o fogão a as panelas por cima. Só faltava o nome: Transolímpio. Muito extravagante, carregava fardos de até cem quilos. Ganhou pouco dinheiro. Em troca, foi agraciado com uma corcunda precoce. Do tipo caladão, de pouca conversa mesmo. Só falava quando provocado. Não levava desaforo para casa.

- Camelo!

- É o pai. Se repetir chamo a mãe de puta! Sou cacunda, mas não sou vagabundo que nem você.

- Camelo!

- Já enterrei o corno do seu pai, seu viado! Se me fizer mais raiva, vou deixar os urubu (sic) comer você.

Durante uma fase da vida, Olímpio foi gari. Mês de juuuuulho, como dizia Cecília Meireles, enquanto varria o pátio da feira, amontoando as palhas dos grajaus de rapadura, começa a tocar na difusora a música “O vento” de Dorival Caimy. Por coincidência, na hora apareceu um redemoinho e espalhou tudo de novo. Alguém, observando a cena, resolveu brincar com Olímpio e, na outra semana, depois da feira, quando ele começou a varrer, a difusora atacou:

- De alguém para Olímpio, O vento de Dorival Caimy.

Ouviu-se desaforo para tudo o que é lado.

Na verdade, por trás daquele disposto varredor de rua e dedicado coveiro, se escondia uma alma de criança capaz de gestos do mais puro carinho e de uma ternura que, provavelmente, só seus defuntos entenderiam. Quem poderia imaginar o gigante Olímpio colhendo flores silvestres para depositar na sepultura de uma jovem esquecida pela própria família? Parecia um personagem de Victor Hugo.

- Olímpio, qual o defunto melhor de enterrar?

Defunto é tudo iguá, a gente divide pelo peso. Tem os manero e os pesado. Metido a importante e orgulhoso, só vivo. Depois de morto, se não enterrar logo, começa a feder do mesmo jeito.

Era a sentença final e infalível do “juiz” Olímpio. Todos se igualavam diante dele, a figura mais humilde da cidade.

Quando Olímpio foi entrando no céu, São Pedro veio lhe dar as boas-vindas.

- Olímpio, como foi a viagem?

A viagem foi boa. Ruim mesmo só a aterrissagem. Botaram um coveiro safado que me jogou na cova e quase quebrou meu pescoço.



(09 de fevereiro/2008)
CooJornal no 567
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br