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Geraldo Batista
Olímpio |
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Olímpio Paulino das Neves
foi outra figura muito popular, fazia parte do cenário da minha cidade.
Não sabia a idade, mas o cartório registrava que nascera 1907. Morreu
aos 79 anos. Levou quase toda a vida de biscates. Como todo pobre
nordestino, aparentava mais idade do que a real. Ingênuo, foi muito
explorado. Tinha a disposição de um animal de carga. Topava qualquer
serviço.
- Olímpio, quero que você vá esgotar a fossa lá de casa.
- Tem cana? Então, eu vou.
Fazia mudanças, levando tudo nas costas. Pena que ninguém tenha feito
uma foto sua, carregando uma mesa enorme emborcada, com as cadeiras
enfiadas nas pernas, o fogão a as panelas por cima. Só faltava o nome:
Transolímpio. Muito extravagante, carregava fardos de até cem quilos.
Ganhou pouco dinheiro. Em troca, foi agraciado com uma corcunda precoce.
Do tipo caladão, de pouca conversa mesmo. Só falava quando provocado.
Não levava desaforo para casa.
- Camelo!
- É o pai. Se repetir chamo a mãe de puta! Sou cacunda, mas não sou
vagabundo que nem você.
- Camelo!
- Já enterrei o corno do seu pai, seu viado! Se me fizer mais raiva, vou
deixar os urubu (sic) comer você.
Durante uma fase da vida, Olímpio foi gari. Mês de juuuuulho, como dizia
Cecília Meireles, enquanto varria o pátio da feira, amontoando as palhas
dos grajaus de rapadura, começa a tocar na difusora a música “O vento”
de Dorival Caimy. Por coincidência, na hora apareceu um redemoinho e
espalhou tudo de novo. Alguém, observando a cena, resolveu brincar com
Olímpio e, na outra semana, depois da feira, quando ele começou a
varrer, a difusora atacou:
- De alguém para Olímpio, O vento de Dorival Caimy.
Ouviu-se desaforo para tudo o que é lado.
Na verdade, por trás daquele disposto varredor de rua e dedicado
coveiro, se escondia uma alma de criança capaz de gestos do mais puro
carinho e de uma ternura que, provavelmente, só seus defuntos
entenderiam. Quem poderia imaginar o gigante Olímpio colhendo flores
silvestres para depositar na sepultura de uma jovem esquecida pela
própria família? Parecia um personagem de Victor Hugo.
- Olímpio, qual o defunto melhor de enterrar?
Defunto é tudo iguá, a gente divide pelo peso. Tem os manero e os
pesado. Metido a importante e orgulhoso, só vivo. Depois de morto, se
não enterrar logo, começa a feder do mesmo jeito.
Era a sentença final e infalível do “juiz” Olímpio. Todos se igualavam
diante dele, a figura mais humilde da cidade.
Quando Olímpio foi entrando no céu, São Pedro veio lhe dar as
boas-vindas.
- Olímpio, como foi a viagem?
A viagem foi boa. Ruim mesmo só a aterrissagem. Botaram um coveiro
safado que me jogou na cova e quase quebrou meu pescoço.
(09 de fevereiro/2008)
CooJornal
no 567