|
Geraldo Batista
Saudade...
|
 |
Hoje, acordei com uma
saudade danada de minha Natal de 1960. Pouco antes da meia-noite, do
último dia de 1959, estava chegando à catedral para assistir a missa
solene que nos introduziria na década de 60. Corria uma piada de mau
gosto, de que negro iria virar macaco na entrada do ano novo. Um
negrinho raquítico perguntou a um senhor sisudo e apressado para entrar
na igreja e garantir um lugar sentado:
- Depois de meia-noite, negro vai virar macaco?
- Infelizmente, não. Respondeu o rabugento racista.
Mesmo assim, o negrinho se sentiu aliviado. Resolvi meter a colher no
angu alheio, mesmo sem ter sido chamado.
- Menino, isso é sacanagem dos brancos. Se todo mundo fosse branco o
mundo seria muito sem graça. Imagine o que seria de nós sem a beleza das
mulatas, sem o futebol de Pelé, de Didi, de Garrincha e de Djalma
Santos. Quando você crescer, vai entender muito melhor o que eu quero
dizer.
Naquela época, Natal tinha apenas uns quatro edifícios de no máximo
cinco andares. Burramente, muita gente achava que aquilo era sinônimo de
atraso. Há cinco anos, estive com uma perna engessada. Escrevi um texto
que começava assim: Para matar o tempo que se arrasta lentamente, olho
para as dunas e as vejo mais verdes e mais bonitas do que nunca. Examino
cuidadosamente cada detalhe. Da janela do quarto do casal vejo dunas com
sinais de calvície, fruto da burrice do bicho homem. De todas as janelas
podem ser vistas antenas de emissoras de televisão e de não sei mais o
quê, enfeando e poluindo a paisagem mais bonita do Nordeste. Se eu fosse
autoridade, mandaria retirar todas elas e as mandava baixar em outro
terreiro, como gostava de dizer o mestre Câmara Cascudo.
Hoje, estamos cercados por concreto armado e tenho que me contentar em
olhar as dunas pelos estreitos espaços entre os edifícios de uma “selva
de pedra” construída em redor do meu prédio.
As ruas de minha Natal estão ficando intransitáveis como se fosse uma
cidade grande. A população já está impossibilitada de se locomover,
sufocada pelo trânsito e pela poluição, sim, a poluição já chegou por
aqui. As autoridades se esqueceram de planejar seu crescimento quando se
curvaram diante da especulação imobiliária, que por um lado fabrica
ricos e por outro destrói o que havia de melhor em nossa cidade - sua
vida pacata e sua água pura.
Em todas as ruas se vêem crescer os espigões sem nenhum planejamento. Os
cadernos de classificados estão recheados de anúncios de novos
lançamentos. Grandes construtoras de outros Estados estão desembarcando
em Natal. Enquanto isso, pouco se fala em uma política habitacional para
os menos favorecidos. A exemplo de outras cidades brasileiras, não se
planeja investimentos em transporte coletivo de massa. Recebi, há dois
anos, um cidadão de Bogotá que me falou que, em sua cidade, o governo
fez uma verdadeira revolução no sistema de transporte coletivo que
melhorou muito seu caótico trânsito. Teve gente que não gostou, mas
melhorou muito a vida dos que não têm automóvel.
Às vezes, fico me perguntando se em lugar de um novo carro não seria
melhor comprar um cavalo?
Que saudade de minha Natal da década de sessenta quando a gente ia para
o Grande Ponto conversar com os amigos e depois voltava para casa a pé
sem medo de ser assaltado.
(16 de fevereiro/2008)
CooJornal
no 568