16/02/2008
Ano 11 - Número 568


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

Saudade...

 

 

Hoje, acordei com uma saudade danada de minha Natal de 1960. Pouco antes da meia-noite, do último dia de 1959, estava chegando à catedral para assistir a missa solene que nos introduziria na década de 60. Corria uma piada de mau gosto, de que negro iria virar macaco na entrada do ano novo. Um negrinho raquítico perguntou a um senhor sisudo e apressado para entrar na igreja e garantir um lugar sentado:

- Depois de meia-noite, negro vai virar macaco?

- Infelizmente, não. Respondeu o rabugento racista.

Mesmo assim, o negrinho se sentiu aliviado. Resolvi meter a colher no angu alheio, mesmo sem ter sido chamado.

- Menino, isso é sacanagem dos brancos. Se todo mundo fosse branco o mundo seria muito sem graça. Imagine o que seria de nós sem a beleza das mulatas, sem o futebol de Pelé, de Didi, de Garrincha e de Djalma Santos. Quando você crescer, vai entender muito melhor o que eu quero dizer.

Naquela época, Natal tinha apenas uns quatro edifícios de no máximo cinco andares. Burramente, muita gente achava que aquilo era sinônimo de atraso. Há cinco anos, estive com uma perna engessada. Escrevi um texto que começava assim: Para matar o tempo que se arrasta lentamente, olho para as dunas e as vejo mais verdes e mais bonitas do que nunca. Examino cuidadosamente cada detalhe. Da janela do quarto do casal vejo dunas com sinais de calvície, fruto da burrice do bicho homem. De todas as janelas podem ser vistas antenas de emissoras de televisão e de não sei mais o quê, enfeando e poluindo a paisagem mais bonita do Nordeste. Se eu fosse autoridade, mandaria retirar todas elas e as mandava baixar em outro terreiro, como gostava de dizer o mestre Câmara Cascudo.

Hoje, estamos cercados por concreto armado e tenho que me contentar em olhar as dunas pelos estreitos espaços entre os edifícios de uma “selva de pedra” construída em redor do meu prédio.

As ruas de minha Natal estão ficando intransitáveis como se fosse uma cidade grande. A população já está impossibilitada de se locomover, sufocada pelo trânsito e pela poluição, sim, a poluição já chegou por aqui. As autoridades se esqueceram de planejar seu crescimento quando se curvaram diante da especulação imobiliária, que por um lado fabrica ricos e por outro destrói o que havia de melhor em nossa cidade - sua vida pacata e sua água pura.

Em todas as ruas se vêem crescer os espigões sem nenhum planejamento. Os cadernos de classificados estão recheados de anúncios de novos lançamentos. Grandes construtoras de outros Estados estão desembarcando em Natal. Enquanto isso, pouco se fala em uma política habitacional para os menos favorecidos. A exemplo de outras cidades brasileiras, não se planeja investimentos em transporte coletivo de massa. Recebi, há dois anos, um cidadão de Bogotá que me falou que, em sua cidade, o governo fez uma verdadeira revolução no sistema de transporte coletivo que melhorou muito seu caótico trânsito. Teve gente que não gostou, mas melhorou muito a vida dos que não têm automóvel.

Às vezes, fico me perguntando se em lugar de um novo carro não seria melhor comprar um cavalo?

Que saudade de minha Natal da década de sessenta quando a gente ia para o Grande Ponto conversar com os amigos e depois voltava para casa a pé sem medo de ser assaltado.



(16 de fevereiro/2008)
CooJornal no 568
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br