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Geraldo Batista
beatriz
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“Os cobradores de impostos e as
prostitutas entrarão no céu antes de vocês.”
Evangelho de São Mateus
Em seu estabelecimento, exercia a profissão mais antiga do mundo. Fora
de casa, uma Maria igual às outras, devota da santa padroeira, sem a
hipocrisia nem o exibicionismo falso das beatas.
- Beatriz, você arranja freguês na rua?
- Só dou cabimento a homem no meu cabaré. Aqui fora, me dou a respeito.
Ninguém pode dizer tanto assim de mim.
Quem não viu Beatriz Dantas de Moura, na procissão de Nossa Senhora da
Guia, descalça, com uma pedra na cabeça, fazendo penitência, afastada
das outras mulheres?
- Porque conheço meu lugar.
Ela ficava esperando a santa na esquina da Rua Antônio Basílio coma Rua
da Alegria. Era a mais perfeita imagem da humildade. Apesar da distância
do tempo, ainda hoje, a “vejo” lá, parada rezando:
- Minha Virgem Santa, eu não passo disso que a Senhora está vendo, uma
puta, mas com sua ajuda, ainda vou sair desta vida de merda, onde essa
sociedade que desfila aí atrás do seu andor me jogou.
A Virgem olhava para ela e respondia:
- Beatriz, meu filho falou que os humildes serão exaltados, tenha
paciência, que sua vez chegará.
Pensando bem, que papel representava Beatriz numa cidade que não tinha
açude público nem praia nem cinema nem clube, nada de nada? É preciso
responder?
Beatriz foi “professora” de inúmeras turmas de rapazinhos inexperientes.
Quando aparecia um freguês abonado, dizia feliz:
- Hoje correu um quilaro! (Era assim que pronunciava a palavra claro)
Tinha a vaidade de saber que era boa de cama e de fogão. Sua galinha
caipira era famosíssima. Recebia encomenda das melhores famílias de
Acari.
Jamais admitiu que mulher nenhuma se queixasse dela.
- Nunca procurei homem. Eles é que me procuram. Só faço minha obrigação.
Sua casa ficava na rua da Alegria, o nome era uma alusão ao seu cabaré.
Só não gostava quando a tratavam de “mulher de vida fácil”.
- Vida fácil quem leva é sua mãe que tem somente um homem. Prefiro que
me chamem de rapariga, de puta ou quenga, qualquer coisa.
Quando ia comprar bebida na bodega de Seu Gabriel, desabafava:
- Tenho fé em Deus que ainda vou findar meus dias como uma mulher
direita, freqüentando a igreja e venerando, sossegada, minha santa
padroeira.
Deus ouviu suas preces. Terminou seus dias como zeladora da Irmandade do
Coração de Jesus, com direito a desfilar na procissão de cabeça erguida.
Quando chegou ao céu, deu de cara com um bando de anjos, tocando
trombeta.
- Valei-me minha Nossa Senhora! Isso só pode ser astúcia de algum antigo
freguês do meu cabaré.
Foi aí que ela ouviu o anjo mensageiro:
- Não, Beatriz. É que há mais festa no céu por uma única ovelha perdida
que se encontrou, do que por todas as beatas que olhavam atravessado
para você na hora da procissão.
(01 de março/2008)
CooJornal
no 570