01/03/2008
Ano 11 - Número 570


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 

beatriz

 

 

“Os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão no céu antes de vocês.”
Evangelho de São Mateus



Em seu estabelecimento, exercia a profissão mais antiga do mundo. Fora de casa, uma Maria igual às outras, devota da santa padroeira, sem a hipocrisia nem o exibicionismo falso das beatas.


- Beatriz, você arranja freguês na rua?

- Só dou cabimento a homem no meu cabaré. Aqui fora, me dou a respeito. Ninguém pode dizer tanto assim de mim.

Quem não viu Beatriz Dantas de Moura, na procissão de Nossa Senhora da Guia, descalça, com uma pedra na cabeça, fazendo penitência, afastada das outras mulheres?

- Porque conheço meu lugar.

Ela ficava esperando a santa na esquina da Rua Antônio Basílio coma Rua da Alegria. Era a mais perfeita imagem da humildade. Apesar da distância do tempo, ainda hoje, a “vejo” lá, parada rezando:

- Minha Virgem Santa, eu não passo disso que a Senhora está vendo, uma puta, mas com sua ajuda, ainda vou sair desta vida de merda, onde essa sociedade que desfila aí atrás do seu andor me jogou.

A Virgem olhava para ela e respondia:

- Beatriz, meu filho falou que os humildes serão exaltados, tenha paciência, que sua vez chegará.

Pensando bem, que papel representava Beatriz numa cidade que não tinha açude público nem praia nem cinema nem clube, nada de nada? É preciso responder?

Beatriz foi “professora” de inúmeras turmas de rapazinhos inexperientes.

Quando aparecia um freguês abonado, dizia feliz:
- Hoje correu um quilaro! (Era assim que pronunciava a palavra claro)

Tinha a vaidade de saber que era boa de cama e de fogão. Sua galinha caipira era famosíssima. Recebia encomenda das melhores famílias de Acari.

Jamais admitiu que mulher nenhuma se queixasse dela.

- Nunca procurei homem. Eles é que me procuram. Só faço minha obrigação.

Sua casa ficava na rua da Alegria, o nome era uma alusão ao seu cabaré. Só não gostava quando a tratavam de “mulher de vida fácil”.

- Vida fácil quem leva é sua mãe que tem somente um homem. Prefiro que me chamem de rapariga, de puta ou quenga, qualquer coisa.

Quando ia comprar bebida na bodega de Seu Gabriel, desabafava:

- Tenho fé em Deus que ainda vou findar meus dias como uma mulher direita, freqüentando a igreja e venerando, sossegada, minha santa padroeira.

Deus ouviu suas preces. Terminou seus dias como zeladora da Irmandade do Coração de Jesus, com direito a desfilar na procissão de cabeça erguida.

Quando chegou ao céu, deu de cara com um bando de anjos, tocando trombeta.

- Valei-me minha Nossa Senhora! Isso só pode ser astúcia de algum antigo freguês do meu cabaré.

Foi aí que ela ouviu o anjo mensageiro:

- Não, Beatriz. É que há mais festa no céu por uma única ovelha perdida que se encontrou, do que por todas as beatas que olhavam atravessado para você na hora da procissão.



(01 de março/2008)
CooJornal no 570
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br