08/03/2008
Ano 11 - Número 571


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 


Exploração sexual de menores
 

 

 

Lendo os jornais ou vendo programas de televisão do Brasil e de países da Europa, fica-se com a impressão de que a exploração sexual de menores, importada juntamente com os turistas, é coisa dos Estados nordestinos. A prostituição infanto-juvenil existe em todo o Brasil, inclusive nas cidades do interior.

É preciso trazer à tona algumas verdades sobre o assunto. Inicialmente, desejo lembrar que antes de nossas cidades serem invadidas pelos estrangeiros já existia o problema, embora em menor escala. Em 1954, eu trabalhava com D. Eugênio Sales. Naquela época Natal parecia uma grande fazenda iluminada. Mangueiras e sapotizeiros em todos os quintais. Até abieiros podiam ser encontrados. Atualmente se alguém perguntar a um morador de Natal o que é abio, provavelmente ninguém sabe. Isto posto, quero dizer aos meus leitores que o bispo D. Eugênio Sales, com quem eu trabalhava, em1954, me disse certa vez: “Geraldo, hoje, por incrível que pareça, têm meninas alunas de colégios religiosos se prostituindo”.

Os turistas podiam ser contados nos dedos da mão, até pela simples razão de que Natal não tinha hotel, a não ser o Grande Hotel, que de grande só tinha o nome.

Em 1983, eu trabalhava na Comissão do Vestibular da Universidade Federal do meu Estado. Devido a uma greve, o vestibular do segundo semestre começou no dia 7 de setembro. Depois da aplicação das provas começavam os trabalhos de correção das redações dos candidatos. Eu chegava à COMPERVE às seis horas da manhã e saía às 18 horas. Certo dia, quando ia para casa, parei em um semáforo e uma colegial com farda de um famoso colégio religioso me perguntou se eu poderia lhe dar uma carona até o Hotel Residence que ficava no caminho de minha casa. A jovem entrou no meu carro e antes de chegar ao seu destino, me perguntou:
- O senhor não prefere me levar para um motel?

Fiquei chocado e perguntei: Menina, você está louca?

- Eu estou acostumada fazer isso.

Quantos anos você tem?

- Quatorze.

E por que razão você quer ir para o motel comigo?

- Por amor.

- Que amor uma ova. Tenho idade de ser seu avô e além do mais estou cheirando mal, pois tomei banho às seis horas da manhã, trabalhei o dia todo correndo para cima e para baixo e você vem me falar em amor.

Perguntei onde ela morava. Em sua rua só havia casas muito boas, portanto ela não podia ser carente.

Parei o carro diante do hotel e mandei que ela saltasse.

- Esse velho não é de nada...

Mas tem juízo, minha filha.

Então, eu pergunto o que tem a ver o turista com o fato de meninas como ela oferecerem seu corpo ao primeiro que encontra?

Não tenho a menor dúvida que com o advento do turismo, o problema cresceu assustadoramente, pois além de tudo, o dólar e o euro são uma atração a mais para as meninas carentes e para as que vendem seus corpos por prazer ou por razões que não consigo entender.

De uma coisa estou certo, as autoridades têm que fazer algo mais do que fazer propaganda na TV e espalhar algumas dúzias de cartazes contra a exploração de nossas crianças.



(08 de março/2008)
CooJornal no 571
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br