12/04/2008
Ano 11 - Número 576


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista

 


Bengala
 

 

 

Resolvi escrever para meus contados leitores sobre as figuras populares de minha cidade, Acari, como já fiz anteriormente.

Batizado com o nome de Manoel Eduardo Neto, um nome completamente desconhecido em nossa cidade. Mas, Bengala é a figura mais típica do Velho Acari. Gosta de todo mundo e todos o admiram. Certo dia, resolvi bater um papo com ele e vou agora transcrever para vocês.

Ele começou a conversa dizendo:

- Gosto de viver bem e deixar que os outros vivam melhor ainda.

- Como surgiu o apelido de Bengala?

- Quando eu era menino, levava meu avô, que era cego, para a igreja. Para aperrear o velho, eu escondia sua bengala. Depois da missa, ele ficava procurando a bengala e nada de encontrar. Aí, perguntavam a ele: Seu Manoel, onde está a bengala? Esse negro safado escondeu. Daí veio o apelido de Bengala.

- Como você se tornou sacristão?

- Meu pai falou com o padre para eu ser sacristão, para ver se eu virava gente. Você imagine um moleque safado como eu, na Igreja, metido a direito. Bom mesmo era tocar o sino para defunto a fim de descolar uma nota. Quando morria uma pessoa importante, a família mandava tocar o sino o dia todo e eu ganhava até 25 mil reis.

- E o emprego deu certo para você?

- Não durou muito tempo, por minha culpa. Eu bebia o vinho de missa e comia as hóstias guardadas na sacristia. A garrafa de vinho eu completava com água, mas as hóstias não havia jeito. Além disso, eu fiz de tudo o que um moleque pode fazer. Não havia padre que agüentasse.

- Como foi que você aprendeu a dirigir automóvel?

- Eu roubava o caminhão de Seu Horácio, onde eu trabalhava de calunga (encarregado de carregar o caminhão) para dar umas voltas. Um dia fiz uma viagem de vinte quilômetros. A primeira viagem grande foi de Natal para Acari. O motorista brigou com Horácio, ele me perguntou se eu tinha coragem de levar o caminhão até Acari. Vim me cagando de medo, mas cheguei em paz. Rodei no caminhão até um guarda me pegar. Aí tive que tirar a carteira.

- Sei que você viajou muito levando pau de arara para o Sudeste, como eram essas viagens?

- Nem me fale. Levei muito pau-de-arara para o Sudeste. Eram os pobres passando necessidade, eu sofrendo com as estradas. Atoleiros, buracos, pneus carecas estourando, não é bom nem lembrar. Às vezes se levava até 19 dias para chegar ao Rio de Janeiro. Chega fazia dó, deixar aquela danação de gente, tudo matuto, no meio da cidade grande, sem saber que rumo tomar.

- E a história da Barata do Padre Estanislau?

- O padre ia celebrar uma missa em Carnaúba e eu saí no carro para dar umas voltas. Terminada a missa eu não apareci logo. Quando o padre descobriu que eu tinha ido para o cabaré no carro dele, foi um deus-nos-acuda. Outra vez, eu vinha de Cruzeta e passou um carro novo soltando uma poeira danada. O padre disse: “Bengala, ultrapasse o carro!” Não dá padre. “Dá Bengala, meu Barata ser muito bom.” Enfiei o pé e foi fumaça para tudo que era lado. “Bengala, você acabar meu Barata.” E não foi o senhor que mandou?

- Bengala, para terminar o papo, conte a passagem com um seu carro velho, o que foi?

- Comprei a peste de um Ford 35. O carro era ruim demais. Dava tanto prego que eu resolvi acabar com ele debaixo de pau. Peguei o primeiro pau que encontrei e comecei quebrando os olhos (faróis) do danado. E tome pau. Deu um trabalho danado para amassar a lataria forte para burro. O pior da história foi que o pau não era pau, era a bomba de encher pneu de Arnaldo alfaiate. Quando ele me viu batendo no carro, correu e armou a maior confusão. “Você está maluco, o que é que você está fazendo?" Não é de sua conta, o carro é meu e eu vou acabar com essa desgraça. “Acontece que a bomba é minha.” Foi aquela merda ...



(12 de abril/2008)
CooJornal no 576
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br