19/04/2008
Ano 11 - Número 577


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista




Luíza Maricota

 

Fecho os olhos e fico “vendo” Luíza Maricota subindo pela rua da Matriz. Chicote na mão, tangendo seu jumento carregado de lenha. A carga era tão grande que, de longe, só se viam as toras e as quatro patas do animal.

- Olhe a lenha de primeira! Só tem angico, catingueira e jurema, pouca fumaça e muita brasa.
- Hoje, eu não quero não. Já comprei.
- E você chama isso de lenha? No meio, tem até favela. Quando começar a chiar no fogo e os olhos a arder, aí você vai se lembrar da minha lenha.

Para os melhores fregueses, ela trazia ainda um feixe de gravetos secos.
- Para você fazer o fogo de manhã.

Outra tarefa sua era botar água de beber nas casas. Muito cedinho, no clarear do dia, atrelava seu burrinho e se mandava para o riacho do Ingá, buscar água.
- Luíza, sua água esta muito cara!
- Bem, se você quiser mais barata, eu posso trazer água de jumento morto. Você é quem sabe. - Água de jumento morto era como chamavam a água do açude Pedra e Cal, pertinho da cidade. Um pouco acima do reservatório havia um cemitério de jumentos e, quando chovia, descia água do cemitério para o reservatório.

Havia um certo mistério envolvendo a figura de Luíza Maricota. Ela sempre usou uma touca para esconder seus cabelos.

Os moleques ficavam perguntando:
- Por que será que Luíza Maricota só anda de touca?
- Ache que ela não tira nem para dormir.
- Ela deve ser careca.
- E tem mulher careca?
- Sei não. Então, o cabelo é tão ruim, que ela tem vergonha de mostrar.

Nenhum de nós tinha coragem de perguntar nada a ela. Sua aparência sisuda e o seu chicote impunham muito respeito.

Jurandir, o líder dos moleques, metido a cavalo do cão, vivia prometendo:
- Eu ainda tiro a touca de Luíza Maricota.
Nunca cumpriu a promessa.

Um dia, alguém descobriu o mistério. Seu cabelo era normal, apenas ela o cortava bem curtinho, “à la homem” Só isso.



(19 de abril/2008)
CooJornal no 577
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br