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Geraldo Batista
Luíza Maricota
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Fecho os olhos e fico
“vendo” Luíza Maricota subindo pela rua da Matriz. Chicote na mão,
tangendo seu jumento carregado de lenha. A carga era tão grande que, de
longe, só se viam as toras e as quatro patas do animal.
- Olhe a lenha de primeira! Só tem angico, catingueira e jurema, pouca
fumaça e muita brasa.
- Hoje, eu não quero não. Já comprei.
- E você chama isso de lenha? No meio, tem até favela. Quando começar a
chiar no fogo e os olhos a arder, aí você vai se lembrar da minha lenha.
Para os melhores fregueses, ela trazia ainda um feixe de gravetos secos.
- Para você fazer o fogo de manhã.
Outra tarefa sua era botar água de beber nas casas. Muito cedinho, no
clarear do dia, atrelava seu burrinho e se mandava para o riacho do
Ingá, buscar água.
- Luíza, sua água esta muito cara!
- Bem, se você quiser mais barata, eu posso trazer água de jumento
morto. Você é quem sabe. - Água de jumento morto era como chamavam a
água do açude Pedra e Cal, pertinho da cidade. Um pouco acima do
reservatório havia um cemitério de jumentos e, quando chovia, descia
água do cemitério para o reservatório.
Havia um certo mistério envolvendo a figura de Luíza Maricota. Ela
sempre usou uma touca para esconder seus cabelos.
Os moleques ficavam perguntando:
- Por que será que Luíza Maricota só anda de touca?
- Ache que ela não tira nem para dormir.
- Ela deve ser careca.
- E tem mulher careca?
- Sei não. Então, o cabelo é tão ruim, que ela tem vergonha de mostrar.
Nenhum de nós tinha coragem de perguntar nada a ela. Sua aparência
sisuda e o seu chicote impunham muito respeito.
Jurandir, o líder dos moleques, metido a cavalo do cão, vivia
prometendo:
- Eu ainda tiro a touca de Luíza Maricota.
Nunca cumpriu a promessa.
Um dia, alguém descobriu o mistério. Seu cabelo era normal, apenas ela o
cortava bem curtinho, “à la homem” Só isso.
(19 de abril/2008)
CooJornal
no 577