03/05/2008
Ano 11 - Número 579


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista




Chicão

 

Chamava-se Francisco Inácio d Silva. Já o conheci viúvo, até parece que nasceu assim. Fez de tudo. Puxou cobra para os pés (limpar mato com enxada), trabalhou ns usinas de algodão, foi dono de cabaré, comerciante ambulante e vendedor de mangalhos na feira. Estudo só as primeiras letras e as quatro operações.
- Nem carecia multiplicar, pobre só faz dividir. Dizia Chicão, em sua sabedoria de matuto.

Devorava tudo o que era de jornais e de revistas e qualquer coisa que estivesse ao seu alcance.
- Às vezes, me dão jornal com quase um mês, mas as verdades daqui não ficam velhas e as mentiras do mesmo jeito.

Ouvia rádio até altas horas da noite. Tinha suas preferências, pela ordem geográfica, Rádio Poti de Natal, a rádio Globo, a de Cuba, BBC de Londres e a de Moscou.
Quando alguém perguntava como ele convivia com a direita e com a esquerda representadas pela rádio Globo e pela de Moscou, ele respondia:
- Pois é, quem escuta só um lado fica troncho.

Suas leitura e sua audiência atenciosa às emissoras de rádio transformaram-no em um personagem diferente. Diferente, sim. Porque alguém politizado e consciente dos seus direitos e dos seus deveres no seu tempo e no seu espaço, chegava a ser excêntrico e para alguns, naquela época em que as botas mandavam mais do que as togas, um subversivo.
- Eu acho bom não conversar muito com Chicão, ele anda lendo muito e ouvindo rádio demais.

Sua face mais curiosa era outra. O Chicão filósofo, franciscano. É assim que eu o via, um São Francisco à paisana. Amava os animais e tratava bem todas as criaturas de Deus, incluindo os homens.
- Alguns pior (sic) do que cachorro.
Criava, ao mesmo tempo, vários gatos e cachorros. Todos quantos encontrasse no meio da rua. Os nomes dos seus cachorros eram ligados às coisas simples do seu dia a dia.
- Cachorro de rico é cão e tem nome de Black, Night, White, Duque, Nero e outros nomes estrambóticos. Os meus são: Folha, Papé, Jorná, Caneta, Dinheiro, Fubá, Barcardi, Jabá, Banda, Chuva, Truvão (sic), tudo nome das coisas que tem aqui e eu gosto.
- Chicão, você gosta de trovão?
- E qual o sertanejo que não gosta de ouvir o ronco do truvão anunciando uma boa chuva?

Com sua fala mansa, adorava conversar e fazer verdadeiras pregações. Por causa disso, recebeu o apelido de Papa. Um nome meio esquisito para quem não tinha papas na língua.

Se eu fosse cineasta faria um filme sobre sua vida. Uma cena ficou gravada na minha retina. Uma silhueta caminhando pelas ruas de Acari, seguida de uma fileira de cães e de gatos na maior harmonia e, ao fundo um lindo pôr de sol no alto da matriz.



(03 de maio/2008)
CooJornal no 579
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br