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Geraldo Batista
Chico de Arlinda
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Moleque legítimo, dos bons.
Dava nó em pingo d´água e ainda deixava um laço para enfeitar. Seu
passatempo favorito era ficar bolando uma nova traquinagem ou safadeza
como diziam as más línguas. Não se pode imaginar nada de “ruim” que
Chico não tenha aprontado. Roubava laranjas (por sinal muito azedas) do
sítio de Seu Elias, só pelo prazer de ouvir a latomia de sua mulher.
Chico de Arlinda era bem mais velho do que os moleques do meu tempo, mas
vivia cercado de pirralhos interessados em ouvir mais um dos seus casos,
suas últimas travessuras e suas estórias de Trancoso.
- Meu filho, pelo amor de Deus, não se acompanhe de Chico de Arlinda
senão você se perde.
- Mãe, e quem já viu alguém se perder numa cidade deste tamanho?
- Deixe de bancar o engraçadinho, seu moleque! Você sabe muito bem do
que estou falando.
À noite, Chico ia para debaixo da tamarineira, onde ficava rodeado de
garotos para ouvir suas famosas estórias de Trancoso. Dramatizava. Abria
os braços, arregalava os olhos e falava, mesmo gaguejando, com uma voz
cavernosa para impressionar a gurizada. Tinha um verdadeiro fã Clube.
Todas as estórias terminavam em um final feliz. Para encerrar, Chico
ficava inventando uma relação de comida que haviam sido servidas na
festa, só para deixar a meninada com água na boca.
Cansado de suas traquinagens, Chico deixou de ser o terror de Acari,
para ser homem sério em Natal. Foi trabalhar de motorista no Tribunal de
Contas do Estado. Acari ficou sem seu moleque maior e a meninada sem a
alegria de suas estórias. Era como se um pedaço da cidade tivesse
morrido, tal a tristeza que se abateu sobre todos. Para completar a
desgraça, um maldito mandou derrubar a nossa querida tamarineira, um
símbolo da cidade. Não havia mais as estórias de Chico nem tamarinas
para fazer ponche.
Tempos depois, Chico teve uma recaída. Deu uma surra em uma de suas
sogras e fugiu para São Paulo. Voltou a ser o Chico de Arlinda dos bons
tempos. Foi deslumbrar os meninos bestas de São Paulo com suas estórias
de Trancoso.
(17 de maio/2008)
CooJornal
no 581