14/06/2008
Ano 11 - Número 585


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista




Zé Ananias


Toda cidade que se presa tem seu bêbado predileto, típico. Símbolo da boemia, da irresponsabilidade inofensiva que não faz mal a ninguém. Se fosse francês, seria um clochard e viveria nas estações do metrô.

Em 1932, perdeu um braço, quando trabalhava no IFOCS. Daí por diante, tomou um porre que duraria 57 anos quando morreu.

Tinha uma ponta de orgulho e de saudosismo do tempo em que trabalhava.

- Olhe aqui, já fui gente. Quando o grande Presidente Gertúlio Dorneles Vargas (fazia questão do nome completo) veio visitar as obras de Gargalheiras, eu fui garçom dele. Tomou café e água que eu servi. Getúlio morreu da sanha de seus inimigos, acrescentava.

Zé Ananias gostava de ficar sentado pelas calçadas cantando horas a fio os benditos da igreja, de preferência o hino da padroeira.
Nossa Senhora da Guia
Padroeira do Acari
Nossos passos alumiai
São teus os filhos daqui. 

A autora do hino, Palmira Wanderley nunca imaginou que seus versos seriam tão executados nas calçadas da cidade.

Sou um bêbado, mas sou devoto de Nossa Senhora da Guia e de meu padim Padre Cícero.

Quando lhe acontecia alguma coisa desagradável, declamava os versos preferidos de sua autoria:
Para tudo precisa sorte,
Pra lavar roupa tombém! (sic)
No dia que não só (sol)
A roupa não quara bem.
Zé Ananias quando ta mole,
Dá um peido e a merda vem.

- Comigo é assim. Não durmo em serviço. Quando vejo que tou ficando bom, calibro mais uma meiota e entro nos eixos.

Assim, era Zé Ananias. Vivia na rua, fazendo a alegria da meninada, com suas cantorias, seus versos, seus causos de quando “era homem de dois braços”. Nunca reclamava pelo fato de ter um braço só. Devia sentir profundamente, mas guardava a dor só para ele, escondida numa garrafa de aguardente.



(14 de junho/2008)
CooJornal no 585
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br