|
Geraldo Batista
Mestre Zuca
|
 |
Mistério, um grande mistério! O que danado haverá por trás desse muro
alto, que a gente não pode descobrir? Era assim que a molecada falava
quando passava pela casa para ir tomar banho no Poço do Felipe ou buscar
água no rio. Ficava todo mundo intrigado com a casa do Mestre Antônio
Zuca da Cunha e seu muro alto. Nos fundos, funcionava sua oficina.
Quando o portão estava aberto, a gente olhava como olho comprido e não
descobria nada.
- Será que ele prepara aquelas porções mágicas, aquelas feitiçarias das
histórias de Chico de Arlinda?
Jurandir, metido a cavalo do cão, dá sua explicação:
- É ali que ele prepara, em segredo, uma tal de química para temperar o
ferro para fazer faca, facão, foice e outras ferramentas.
- Jurandir, você não acha que tem efe demais nessa sua história?
- Mande sua mãe explicar, seu viado.
Teve uma época, em que passou a haver um movimento maior. Um entra e sai
de gente, principalmente, de homens.
Um dia Zé de Pontes chegou com a novidade.
- Na casa de Mestre Zuca está funcionando um puteiro.
Mesmo assim, continuava o mistério. Até que um dia, veio a explicação,
que deixou a todos nós um pouco tristeza. Aquele muro muito grande
serviu, durante muito tempo, para ele esconder sua vergonha, guardar sua
tristeza. Um dos seus filhos andou moldando umas chaves para abrir as
portas de algumas lojas. Coisa de jovem mesmo. Pequenos furtos sem
maiores conseqüências. Mas, para aquela alma ingênua foi uma ferida
muito profunda. Logo ele que amava os passarinhos, respeitava sua
liberdade. Quando seu filho foi preso, ele também se fechou atrás do
muro. Depois o filho foi para o Rio de Janeiro, amadureceu, virou gente
e nunca mais voltou.
Sua ferida sarou, mas o muro continuou alto, para alimentar a curiosidade
dos moleques.
Mestre Zuca era uma figura ímpar. Habilidoso, consertava todo tipo de
máquina. Fabricava ferramentas, soldava qualquer peça. Um faz-tudo. Era
o único que dava corda no relógio da matriz e lhe dava assistência
técnica. Já idoso, ainda subia as escadas da torre sem nenhuma proteção
e não cobrava nada da paróquia.
- Isto é para pagar meus pecados.
Tinha suas manias. Era vegetariano, numa época em que nem se conhecia
essa palavra. Sua alimentação era fubá de milho, mel de abelha e fruta.
Tinha uma saúde de ferro.
Mestre Zuca, quantos anos o senhor tem?
- 160 anos.
- Não é possível, tudo isso.
- Pois é, 80 de manhã e 80 de noite.
Gostava de conversar safadeza com os amigos. Certo dia, já velhinho, fez
uma revelação:
- Com essa idade, ainda ando com o bicho de cabeça erguida.
- Mestre Zuca, não tá vendo que eu não acredito nessa história. Isso só
serve para mijar e olhe lá.
Depois de uma sonora gargalhada, desceu as calças e mostrou.
- Está vendo aqui, de cabeça para cima e vai assim para a cova.
Ele havia amarrado um cordão no pênis e passado dado um nó no cinturão.
- Mestre Zuca, é verdade que fubá com mel de abelha é o melhor
afrodisíaco que existe?
- Não. Afrodisíaco de primeira é mulher nova. Fora isso, só cordão. Mas,
preste atenção, cordão levanta, mas não endurece.
(31 de maio/2008)
CooJornal
no 583