07/06/2008
Ano 11 - Número 584


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

Geraldo Batista




Benedito Acelera


Quando conheci Benedito Acelera, ele já estava na casa dos sessenta anos, mas ainda tinha muita força e muita disposição para comer. Nesta ocasião, meu pai lhe perguntou:
- Benedito, você ainda come um bode assado?
- Como mais não.
- Por quê?
- Porque não acho quem me dê.

Benedito Acelera foi o homem de mais força e o maior comedor que apareceu, até hoje, no sertão do Seridó. Nunca se soube de sua origem. Vivia de cidade em cidade. Era de muito pouca conversa. Só não gostava do apelido.
- Benedito Acelera! Gritava a molecada, de longe com medo de apanhar.
- Acelera o cu da mãe, cambada de filho da puta!

Meu pai contava causos de Benedito. Certa vez, ele chegou numa fazenda para trabalhar na limpeza de um roçado. Pediu a maior enxada que tivesse. Examinou a maior que tinha na fazenda e disse:
- Pra mim, isso é enxadeco.
Começou a limpar o mato. Ia muitos eitos à frente dos outros e não parava para nada como os demais. Quando trouxeram o almoço, ele olhou para a panela e disse:
- Essa comida não dá nem para uma pessoa, imagine para essa cambada de gente.
O empregado que havia levado a comida foi contar ao patrão:
- Major, o homem novato trabalha feito um trator, mas não quis almoçar. Falou que o almoço não dava nem para ele sozinho.
No final da jornada, o fazendeiro mandou chamar Bendito.
- Cabra, é verdade que você disse que a comida não dava nem para você comer sozinho?
- Se eu comesse, o que os outros sete iam comer?
- Vamos até o armazém. Escolha a maior manta de carne que você encontrar.
O major mandou assar a carne, preparar uma panela grande de feijão e mandou servir com cerca de um quilo de farinha em um saco de guardar farinha. Quando Benedito estava terminando, pegou o restinho da farinha do fundo do saco e jogou na mão e uma parte caiu fora.
- Diabo, já é pouca e ainda caiu no chão.
- Olhe aqui, seu cabra, pode cair fora, eu não vou sustentar cavalo de duas pernas, não.

Certa vez, ele levou um bilhar na cabeça de Acari até Cruzeta (25 quilômetros). O dono da encomenda achou caro o frete.
- Tem nada não, eu levo de volta.

De outra feita, Zé Evaristo mandou que ele descarregasse um caminhão de algodão. Quando foi pagar, ele disse:
- Quero dinheiro não. Basta o senhor autorizar eu almoçar na pensão de dona Zefa.
Comeu todo o estoque de comida. Saiu mais caro do que se tivesse pago a cinco homens para fazer o serviço.

Em outra ocasião, um soldado de polícia, que não o conhecia, o desafiou para ver quem comia mais banana. Benedito parou na qüinquagésima por falta de banana.
 



(07 de junho/2008)
CooJornal no 584
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br