26/07/2008
Ano 11 - Número 591


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

 

Geraldo Batista




As duas justiças brasileiras
 

Toda nação brasileira ficou estarrecida com a rapidíssima decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes em favor do bandido Daniel Dantas, o homem do Opportunity, que nunca perdeu uma oportunidade de se dar bem nos seus escusos negócios.

Para milionários como Daniel Dantas e Salvatore Cacciola é usada uma justiça diferenciada. Do mesmo modo, os políticos têm um tal de foro privilegiado, uma verdadeira aberração. O foro privilegiado também chamado de foro por prerrogativa de função é um meio de favorecer a impunidade. Não tem nenhuma justificativa ética. É um desrespeito ao princípio republicano da igualdade, segundo o qual a lei deve ser aplicada da mesma maneira a todas as pessoas que se encontrem na situação prevista por ela, independentemente da posição social que ocupem, como lembra Alexandre Magno Fernandes Moreira.

Se o Brasil fosse uma democracia de verdade, o presidente da república e o faxineiro seriam tratados igualmente. Na realidade, vivemos numa aristocracia, em que uma elite governante se coloca acima da lei.

Meus contados leitores, a lei dos poderosos está amparada por um verdadeiro surrealismo, em que os ministros do STF são indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado. Assim, os mesmos políticos corruptos são os responsáveis pela nomeação de seus julgadores. E o que é pior ainda, o procurador geral da república, responsável pela acusação perante o STF, é nomeado pelos políticos.

Há de se perguntar, o ministro Gilmar Mendes se daria o trabalho de elaborar uma sentença à meia-noite para soltar um ladrão pobre que tivesse roubado a fortuna de dez reais? Nem que a vaca tossisse ou arrotasse mesmo sem tomar coca-cola. Precisa dizer mais alguma coisa?

Infelizmente o STF não tem o perfil de um Joaquim Barbosa, de uma Ellen Gracie ou de um Carlos Ayres Britto, é muito mais parecido com Nelson Jobim, o fabricante de habescorpus.

Agora analisemos a outra justiça, aquela que julga o pobre, o bandido comum, o ladrão de galinha. Essa justiça se baseia friamente no que está escrita nos códigos.

A mídia escrita e televisada de Natal estampou hoje a foto e entrevista de uma “perigosa” ladra que está presa desde janeiro por haver tentado roubar a fortuna de DEZ REAIS para comprar leite para seus três filhos famintos, abandonados pelo pai. Conforme ela narrou, um amigo de sua família, ao saber de sua prisão, foi até a delegacia levando dez reais para que ela fosse solta. “O dinheiro foi entregue, mas eu até hoje estou presa esperando a decisão da justiça.”

Segundo os jornais, foi dada entrada em um habeas corpus, mas até agora não foi julgado.

Essa é a justiça para os pobres, morosa e cega.



(26 de julho/2008)
CooJornal no 591
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br

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