08/08/2008
Ano 11 - Número 593


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

 

Geraldo Batista




Rapadura em garajau
 

Ontem, estava eu caminhando despreocupado pelo Bosque dos Namorados. Não havia nenhum Chapeuzinho Vermelho nem tampouco, lobo mau. Comecei a arrumar as gavetas de memória “enquanto seu lobo não vem”. A bem da verdade, eu prefiro mil vezes o lobo de ontem, do que o de hoje que atende pelo complicado nome de Mal de Alzheimer.

Quando cheguei em casa, resolvi perguntar ao meu professor, um tal de Google, sobre a doença, pensando que se tratava de uma novidade dos últimos 20 anos. Que nada, esta doença degenerativa do cérebro caracterizada por uma perda das faculdades cognitivas superiores, manifestando-se inicialmente por alterações da memória episódica, (vige que linguagem complicada) foi descoberta em 1909 pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer. Antigamente, os velhos morriam caducando e a gente achava normal. Hoje a caduquice virou Mal de Alzheimer e se transformou em peste.

Valha-me Deus, perdi o rumo deste arremedo de crônica que não deveria ter nenhuma doença. Deve ter sido um vírus do computador que entrou sem me avisar. Eu queria falar de coisa boa, de pensamentos positivos, dos amigos, companheiros de caminhada, todos moleques como eu, cada qual mais mentiroso do que outro, embora eu reivindique o título de mais mentiroso para mim mesmo.

Como eu não tenho um pingo de juízo, caminho pela manhã e à tarde. A turma da manhã a quem eu chamo carinhosamente de mundiça é mais numerosa. Tem gente de toda qualidade, desde Labiênio, sério, mais grosso que papel de enrolar prego até Vivi, o mais safado de todos. Só usa frases de dois sentidos, mas não liga para as gozações de ninguém. Labiênio, por causa de sua casmurrice, ganhou o apelido de Alma Apertada. Coisa de Rafael o chama. Quando comecei a caminhar no Bosque, fui logo avisado que tivesse cuidado com ele. Aos poucos tratei de domá-lo como se amansa cavalo brabo. Hoje ele, milagrosamente, já ri de minhas estórias cada qual mais complicada, mesmo quando o personagem é o próprio.

Atualmente, todos nós da turma matutina estamos muito preocupados com o desaparecimento de Mauricea, uma menina magrinha, dentista nas horas vagas, uma figura ímpar. Já se vão dois meses de sua ausência. Correm muitas histórias e explicações para o seu sumiço. Uns dizem que ela fugiu com um alemão rico, um tal Alzheimer. Outros falam que ela teve menino, cujo pai é um de nós. Difícil é explicar como uma criatura que pesa cerca de 50 quilos, com cintura de pilão, possa ter “escondido” a cria. Todos os dias ela se comunica comigo por e-mail, promete voltar, mas fica só na promessa. E o mistério continua...

A turma da tarde é bem menor, dá para contar nos dedos: Souza, Ciduca, Jorge Góis, Patrício, Rômulo, Eraldo Eudes e eu. Ciduca é o mais irreverente. Inventa histórias hilariantes e me chama carinhosamente de Geraldim, o doido comunista. Ele e eu nos revezamos nos causos para matar o tempo. Vai aqui uma de suas histórias: Havia, em Caicó, um garoto, chamado Alfredo, fanático pelo Incrível Hulk, o homem verde. Tinha uma danação de bonecos do personagem. Não ligava para os estudos. Os bonecos eram sua vida. Um dia, sua mãe o chamou e disse. Vou jogar todos os bonecos do seu herói no lixo. A partir de hoje seu herói vai ser Jesus Cristo. Se você ainda falar em Hulk, leva uma surra. Depois de algum tempo, um tio foi almoçar em sua casa. Na hora do almoço, perguntou: Alfredo, quem é mais poderoso, Jesus Cristo ou Hulk? O menino olhou para a mãe e disse: Jesus Cristo. Nesta hora, a mãe vai até a cozinha e o garoto mais que de pressa falou, apontando para o crucifixo na parede: Tio, não pense que Hulk apanha desse maguim, não.

Ontem, Ciduca citou uma das máximas de Manuel de Neném, seu pai: “Meu filho, a única coisa ruim no casamento é quando a gente briga com a mulher e tem que dormir bunda com bunda que nem rapadura em garajau”.



(08 de agosto/2008)
CooJornal no 593
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br

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