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Geraldo Batista
Rapadura em garajau
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Ontem, estava eu caminhando despreocupado pelo Bosque dos Namorados. Não
havia nenhum Chapeuzinho Vermelho nem tampouco, lobo mau. Comecei a
arrumar as gavetas de memória “enquanto seu lobo não vem”. A bem da
verdade, eu prefiro mil vezes o lobo de ontem, do que o de hoje que
atende pelo complicado nome de Mal de Alzheimer.
Quando cheguei em casa, resolvi perguntar ao meu professor, um tal de
Google, sobre a doença, pensando que se tratava de uma novidade dos
últimos 20 anos. Que nada, esta doença degenerativa do cérebro
caracterizada por uma perda das faculdades cognitivas superiores,
manifestando-se inicialmente por alterações da memória episódica, (vige
que linguagem complicada) foi descoberta em 1909 pelo neuropatologista
alemão Alois Alzheimer. Antigamente, os velhos morriam caducando e a
gente achava normal. Hoje a caduquice virou Mal de Alzheimer e se
transformou em peste.
Valha-me Deus, perdi o rumo deste arremedo de crônica que não deveria
ter nenhuma doença. Deve ter sido um vírus do computador que entrou sem
me avisar. Eu queria falar de coisa boa, de pensamentos positivos, dos
amigos, companheiros de caminhada, todos moleques como eu, cada qual
mais mentiroso do que outro, embora eu reivindique o título de mais
mentiroso para mim mesmo.
Como eu não tenho um pingo de juízo, caminho pela manhã e à tarde. A
turma da manhã a quem eu chamo carinhosamente de mundiça é mais
numerosa. Tem gente de toda qualidade, desde Labiênio, sério, mais
grosso que papel de enrolar prego até Vivi, o mais safado de todos. Só
usa frases de dois sentidos, mas não liga para as gozações de ninguém.
Labiênio, por causa de sua casmurrice, ganhou o apelido de Alma
Apertada. Coisa de Rafael o chama. Quando comecei a caminhar no Bosque,
fui logo avisado que tivesse cuidado com ele. Aos poucos tratei de
domá-lo como se amansa cavalo brabo. Hoje ele, milagrosamente, já ri de
minhas estórias cada qual mais complicada, mesmo quando o personagem é o
próprio.
Atualmente, todos nós da turma matutina estamos muito preocupados com o
desaparecimento de Mauricea, uma menina magrinha, dentista nas horas
vagas, uma figura ímpar. Já se vão dois meses de sua ausência. Correm
muitas histórias e explicações para o seu sumiço. Uns dizem que ela
fugiu com um alemão rico, um tal Alzheimer. Outros falam que ela teve
menino, cujo pai é um de nós. Difícil é explicar como uma criatura que
pesa cerca de 50 quilos, com cintura de pilão, possa ter “escondido” a
cria. Todos os dias ela se comunica comigo por e-mail, promete voltar,
mas fica só na promessa. E o mistério continua...
A turma da tarde é bem menor, dá para contar nos dedos: Souza, Ciduca,
Jorge Góis, Patrício, Rômulo, Eraldo Eudes e eu. Ciduca é o mais
irreverente. Inventa histórias hilariantes e me chama carinhosamente de
Geraldim, o doido comunista. Ele e eu nos revezamos nos causos para
matar o tempo. Vai aqui uma de suas histórias: Havia, em Caicó, um
garoto, chamado Alfredo, fanático pelo Incrível Hulk, o homem verde.
Tinha uma danação de bonecos do personagem. Não ligava para os estudos.
Os bonecos eram sua vida. Um dia, sua mãe o chamou e disse. Vou jogar
todos os bonecos do seu herói no lixo. A partir de hoje seu herói vai
ser Jesus Cristo. Se você ainda falar em Hulk, leva uma surra. Depois de
algum tempo, um tio foi almoçar em sua casa. Na hora do almoço,
perguntou: Alfredo, quem é mais poderoso, Jesus Cristo ou Hulk? O menino
olhou para a mãe e disse: Jesus Cristo. Nesta hora, a mãe vai até a
cozinha e o garoto mais que de pressa falou, apontando para o crucifixo
na parede: Tio, não pense que Hulk apanha desse maguim, não.
Ontem, Ciduca citou uma das máximas de Manuel de Neném, seu pai: “Meu
filho, a única coisa ruim no casamento é quando a gente briga com a
mulher e tem que dormir bunda com bunda que nem rapadura em garajau”.
(08 de agosto/2008)
CooJornal
no 593