
22/08/2008
Ano 12 -
Número 595

ARQUIVO
GERALDO BATISTA
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Geraldo Batista
Sobre
minha Pasárgada
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Esta semana, conversando
com meus botões, enquanto caminhava sozinho no Bosque dos Namorados,
esperando a chegada de meus companheiros de todas as tardes. Agora,
aposentado depois de fechar o escritório serei apenas vagabundo e
sonhador. Fazia planos para me mudar de Natal para Pasárgada, não a
antiga cidade da Pérsia. Não, meu devaneio era sobre a Pasárgada de
Manuel Bandeira, onde igualmente seria amigo do rei. Tanto poderia ser a
Urca, bairro dos meus sonhos, onde mora uma amiga muito especial que me
presenteia com poemas, toda semana, como poderia ser uma pequena aldeia
aos pés dos Pirineus. Quando eu era menino, li um conto sobre um garoto
que saiu de sua casa na Itália e foi parar numa aldeia nos Pirineus.
Desde então, nunca saiu de minha cabeça aquela paisagem descrita no
conto que encantava a imaginação do moleque de Acari.
Hoje à noite, (19/agosto) desfiz todos os meus sonhos e resolvi deixar
para lá Pasárgada, Urca e os Pirineus. Qual o motivo de tão brusca
decisão? Não queiram nem saber, meus contados leitores, para não morrer
de inveja.
- Já sei, arrumou um novo amor. Que nada. Nesta idade só quem gosta da
gente é reumatismo e fundo de rede.
Está certo, vou revelar o segredo de tão brusca reviravolta para decidir
ficar na minha aldeia Natal. Descobri que minha Pasárgada é aqui mesmo.
Bom, não é bem assim, mas será em breve. Seis meses passam depressa. Já,
já chega o carnaval que aqui é em novembro e se chama Carnatal, uma
marmota inventada pelas bandas baianas. Depois virá o Natal e logo
depois do ano novo, chegará a revolução geral e irrestrita. Natal ficará
irreconhecível.
Vou começar pelo trânsito, hoje caótico. Natal terá corredores especiais
para TLT (Transporte Leve sobre Trilhos), uma espécie de metrô sem
buraco. Ônibus de dois andares de fazer inveja a Londres, Ciclovias
melhores do que as da Holanda. Já estou pensando em vender meu carro, um
luxo sem a menor serventia, logo mais.
Meus netos terão escolas iguais às da Irlanda, da Noruega ou da
Finlândia, onde os alunos passarão o dia todo na escola e saem para
casa, em transporte pago pelo governo municipal, depois de devidamente
jantados.
Nem tudo é perfeito, os Planos de Saúde de Natal irão todos à falência.
Não, não pode ser, pois todos nossos munícipes (isso é a cara de
vereador fazendo promessa) terão empregos bem remunerados. Verdade.
Mesmo assim será o fim dos Planos de Saúde, pois, toda a população terá
assistência médica de primeiro mundo. Parece que estou vendo o pobre
chegando ao hospital sendo recebido de braços abertos por belas
enfermeiras para serem encaminhados para um especialista muito bem pago
e se desfazendo em salamaleques.
Vou voltar em morar na minha casa, derrubar o muro da frente e
substituí-lo por uma jardineira baixinha onde plantarei violetas e
outras flores delicadas. Para que cerca elétrica se teremos o maior
sistema de segurança do planeta?
Para não matar meus leitores de inveja vou terminar falando apenas no
serviço de esgotamento sanitário perfeito com aproveitamento dos
resíduos transformados em adubo orgânico, fora os etc prometidos.
Gente, não estou delirando, não. Ouvi tudo isso num só programa
eleitoral. Como a coisa está só começando, daqui para a eleição,
Pasárgada já era. Vou viver num paraíso.
(22 de agosto/2008)
CooJornal
no 595
Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br
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